Entre 1935 e os anos 1940, Marcel Duchamp começou a produzir a Boîte-en-valise, uma espécie de museu portátil de si mesmo. Dentro de uma mala, reuniu miniaturas e reproduções de dezenas de suas próprias obras. O artista que ficou famoso por transformar um urinol numa obra de arte encontrava sua versão cacheiro viajante. O gesto é lido como provocação contra os museus, contra a aura e contra a ideia de original, mas não para por ai. Nessa série que dá unidade a sua produção, Duchamp transforma a própria obra em produto e inversamente o produto em obra.
Ao criar pequenos souvenirs de suas principais obras, ele reduz, embala e torna portátil aquilo que antes dependia de uma parede, de uma instituição, de uma coleção ou apenas de uma lembrança. A obra passa a caber numa mala. E tudo que cabe numa mala pode circular, ser comprado, transportado e possuído.
O souvenir nasce exatamente da impossibilidade de possuir a coisa inteira. Não podemos levar uma cidade, uma viagem ou um acontecimento conosco. Levamos uma miniatura. O souvenir é uma espécie de propriedade substitutiva. Possuímos o objeto porque não podemos possuir aquilo que ele representa.
A relíquia, por outro lado, opera diferentemente. Ela não representa apenas uma ausência: pretende manter uma continuidade com ela. Um objeto usado por alguém famoso vale porque esteve próximo do corpo, da história, do acontecimento. Sua matéria é quase secundária. O que vale é a narrativa que se depositou nela.
O mercado conhece muito bem essa diferença. E vive de embaralhá-la.
Outro ingrediente importante é a fama. A fama talvez seja justamente a máquina que transforma souvenirs em relíquias. Um objeto banal, quando associado a alguém suficientemente conhecido, muda de natureza. Uma camisa deixa de ser camisa. Uma guitarra deixa de ser guitarra. Uma folha de papel rabiscada deixa de ser papel. A fama acrescenta ao objeto uma espécie de valor excedente: uma propriedade simbólica.
É por isso que o mercado cultural está sempre tentando produzir escassez dentro da reprodução. Edições limitadas, peças numeradas, assinaturas, séries especiais. É preciso fabricar em quantidade suficiente para existir mercado, mas em quantidade pequena o bastante para parecer único. O objeto precisa estar revestido de história, de sentido de memória, e sendo assim de valor.
Duchamp percebeu essa contradição muito cedo. A Boîte-en-valise ironiza o mercado ao reproduzir e miniaturizar sua obra, mas ao mesmo tempo cria um novo objeto colecionável. A crítica à mercadoria vira mercadoria. A recusa da aura produz outra aura.
Talvez esse seja um dos movimentos mais interessantes de Duchamp: mostrar que o valor não está propriamente na coisa. Está no regime que se constrói ao redor dela. O urinol de A Fonte já fazia isso. O objeto industrial continuava materialmente o mesmo. O que mudava era sua inscrição. O nome. O autor. O lugar. A história. A propriedade simbólica.
A fama funciona da mesma maneira. Ela produz diferença de valor entre coisas praticamente iguais. Produz proveniência, autenticidade, desejo e, sobretudo, memória. Toda coleção é, nesse sentido, uma aposta no futuro. Compra-se uma coisa hoje na expectativa de que amanhã ela seja mais lembrada. A memória produz escassez retroativamente. Quando alguém desaparece, tudo o que restou passa a pertencer a um estoque finito, e algo banal pode transitar para o sagrado.
Por essa linha, a Boîte-en-valise não é apenas uma mala de vendedor. Ela é também uma espécie de câmara funerária portátil. Nela, ele seleciona, reduz, reproduz e embala a própria obra; ele administra sua própria posteridade antes que os outros o fizessem. Aquilo que estava disperso pelo mundo e nas lembranças passa a ser reunido numa forma fechada. A obra fabrica o autor, diria Foucault. Os objetos na mala, como aqueles guardados numa câmara funerária de um faraó, não preservam a vida em si, mas uma forma destinada a atravessar o tempo. Ironicamente, trata-se também de um souvenir, uma forma-mercadoria. Duchamp se faz produto.
A mala é feita para circular; o sarcófago, para conservar. Um pertence ao mercado e ao movimento; o outro, à memória e à morte. A Boîte-en-valise faz as duas coisas ao mesmo tempo: põe a obra em circulação justamente ao transformá-la em vestígio.
O souvenir tenta vender uma lembrança.
A relíquia tenta vender uma presença.
O mercado vende as duas.






