Nas últimas semanas, dos dez encontros presenciais que tive, arrisco dizer que pelo menos nove foram, em boa parte, dedicados ao mesmo assunto. “Estou tão cansado.” “Estou sem energia.” “Parece que não vou mais aguentar.” “Acho que estou doente.”

Talvez por isso tenha me chamado tanto a atenção um episódio recente do podcast Falando Nisso, do psicanalista Christian Dunker, intitulado “Por que estamos tão cansados?”. Dunker diz que o cansaço se tornou um dos grandes significantes do nosso tempo. Não estamos cansados apenas depois de um dia particularmente puxado. Estamos construindo vidas cansadas.

Para explicar esse fenômeno, ele recupera Sociedade do Cansaço, do filósofo Byung-Chul Han. Uma das ideias centrais do livro é que não precisamos mais de alguém nos mandando trabalhar mais, produzir mais ou ir além. Incorporamos completamente essa cobrança. É preciso ser melhor, mais produtivo, mais saudável, mais informado, mais interessante. Sair da zona de conforto, superar limites e encontrar a melhor versão de si mesmo.

Dunker descreve isso de uma maneira que ficou na minha cabeça: fazemos o sujeito trabalhar “além de si mesmo”. Além do corpo que realmente tem ou da idade que realmente tem. Talvez por isso descansar tenha ficado tão difícil. Porque descansar não é simplesmente não trabalhar e conseguir desligar.

Ainda neste tema reporto aqui um conteúdo recente do jornal francês Le Monde que tratou especificamente sobre o esgotamento provocado pelas mensagens. WhatsApp, Instagram, grupos, notificações… Uma pesquisa citada pelo jornal, que analisou cerca de 3,4 milhões de mensagens, mostrou que 70% das mensagens de WhatsApp eram respondidas em menos de cinco minutos. É a tal da disponibilidade permanente.

Estamos no sofá, mas estamos respondendo. Estamos esperando o filho sair da escola, mas estamos lendo. Estamos almoçando, mas estamos olhando. Estamos de férias, mas estamos acompanhando. O trabalho até termina, mas o estímulo, não.

Talvez seja aí que esteja uma parte importante do nosso cansaço. Aos poucos, eliminamos os intervalos entre as coisas. Qualquer minuto vazio pode ser ocupado por uma tela, mensagem, notícia, podcast, tarefa. Aliás, até descansar virou tarefa: dormir oito horas, meditar, fazer exercício, ler, bater a meta de passos, aproveitar o fim de semana. E, ufa, voltar renovado na segunda-feira.

Tudo devidamente encaixado na mesma agenda que nos deixou exaustos. Dunker fala de uma vida organizada pelo gerenciamento excessivo de nós mesmos e de tudo ao nosso redor. Achei especialmente incômoda uma imagem que ele usa que é a de quando o objetivo do dia passa a ser simplesmente chegar ao fim do dia.

Talvez esteja na hora de recuperar algo que parece quase improdutivo demais para o nosso tempo: o intervalo. Ficar alguns minutos sem responder, produzir, consumir, melhorar ou otimizar absolutamente nada. Descansar, no sentido mais radical da palavra, talvez seja aceitar que, por algum tempo, não precisamos fazer coisa alguma. Nem mesmo tentar descansar direito.

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