Jojo Wachsmann: O que dois flamenguistas falam quando o assunto não é o Flamengo

Uma vez diversificação, sempre diversificação. Uma tabelinha com Bruno Mérola, analista da Empiricus e editor da série “Os Melhores Fundos de Investimento”, que inspira alguns dos fundos da Vitreo

Por Jojo Wachsmann, sócio-fundador e CIO da Vitreo

Bruno Mérola é analista e dono do relatório Os Melhores Fundos de Investimento O Diário de Bordo de hoje é especialíssimo.

Assim como já aconteceu em outras versões, trouxe um convidado para um bate-papo. Na verdade, a conversa já aconteceu. Foi tão despretensiosa quanto de alto nível, então não tive dúvidas sobre compilar o melhor do que foi falado e trazer para você.

Confesso que deu trabalho organizar tudo aqui. Tive que deixar algumas coisas de fora para priorizar outras. Mas, para o alívio de poucos, apesar de flamenguistas, não falamos de Flamengo. Embora o Flamengo esteja envolvido no que fez essa conversa acontecer.

O título do Day One da última sexta feira (18), muito bem escrito pelo Bruno Mérola, era “Chicago Bulls versus Flamengo”. E aqui começa a história.

Antes de começar, uma explicação rápida: Day One é a publicação diária da Empiricus (comumente escrita pelo Felipe Miranda, estrategista-chefe da casa e CIO). Bruno Mérola é analista e dono do relatório Os Melhores Fundos de Investimento, que inspira alguns dos nossos fundos – e naquele dia escreveu a coluna (normalmente é ele quem escreve às sextas).

Agora sim, de volta à história.

Liguei para o Mérola para elogiar o texto. Além de muito bem escrito, a forma como ele abordou o tema da diversificação é muito interessante. Falei também da ideia de trazer a nossa conversa para o meu Diário de Bordo de hoje no formato de uma entrevista.

Pedi para que ele já começasse falando um pouco mais sobre a publicação. Após o meu elogio, ele começou:

Bruno Mérola - Que legal, Jojo. Muito obrigado pelo elogio. Fiquei feliz que a publicação agradou a maioria das pessoas. Por aqui, recebemos vários feedbacks e alguns assinantes até me enviaram mais exemplos que poderiam ter entrado no texto. Talvez precise fazer uma “parte 2” dele.

Sobre a escolha do tema, tenho a consciência de que “diversificação de carteira” não é sexy. Não tem o apelo que falar de ações, criptomoeda e outras coisas tem. As pessoas preferem ouvir que uma determinada ação está com 300% de valorização a ouvir sobre a importância de construir uma carteira diversificada, com alocações condizentes ao perfil, moedas, geografia, ativos de risco, proteções…

Então é sempre bom ter outras perspectivas, contar boas histórias, fazer analogias… Tudo isso nos ajuda a nos conectarmos com a pessoa que, de fato, precisa ouvir sobre aquilo. Você mesmo é um cara com repertório vasto, sempre tem boas analogias para explicar as coisas. Eu gosto muito de filme, por exemplo. Certa vez escrevi um Day One e usei a temática de filmes para falar sobre ranking de fundos. Se eu falasse de um jeito mais simples, talvez não tivesse o apelo que teve com os leitores.

Diversificar é muito importante. Assim como um time precisa ter o setor defensivo, meio de campo e ataque. E a gente tem que saber diversificar os temas até para falar de diversificação.

Jojo - E o que você acha que falta para as pessoas entenderem sobre diversificação?

Bruno Mérola – Que esse é, provavelmente, o conceito mais importante e mais subestimado do mercado financeiro. O conceito de diversificação vai na direção contrária do FOMO (Fear Of Missing Out), ou medo de ficar de fora.

As pessoas têm medo de estarem sempre perdendo uma oportunidade.

Quando você tem uma carteira diversificada, você deveria reduzir o seu FOMO. E indo na linha um pouco mais filosófica, as pessoas deveriam tentar reduzir mais o FOMO do que o risco.

Jojo - Me dê um exemplo disso.

Bruno Mérola - O investidor que está devidamente diversificado não deveria estar com medo de perder a alta da cripto porque ele já tem ali a parcela dele de cripto. O investidor que está bem diversificado não deveria ter medo de perder a volta da renda fixa porque ele tem ali a parcela dele de renda fixa. Então, estar bem diversificado faz com que você não seja tão impactado pelo efeito do FOMO.

É muito mais importante o investidor manter seus aportes regulares do que ficar procurando a nova tendência, o que está subindo. Se já tem uma carteira diversificada, foque nos aportes e no longo prazo.

E é isso que eu falo sempre, inclusive quando você pede minhas considerações finais nas Lives do FoF Melhores, Jojo. Se você reparar, falo sempre as mesmas coisas. Esse é o meu mantra. Isso que eu tentei fazer no texto. Falar a mesma coisa, de um jeito diferente.

Jojo – Na teoria, essa não é uma tese complicada. Ela é de fácil entendimento. Por que você acha que o investidor tem dificuldade de aplicá-la?

Bruno Mérola - Vejo o investidor, no geral, com a tendência de ter atitudes como resposta a mudanças. Ou seja, ele quer fazer algo quando vê que alguma “coisa” aumentou ou diminuiu. Por exemplo: quer vender ou comprar uma ação só porque viu a medida de preço variar. E o contraponto dessas reações é o tempo.

Outro exemplo muito comum é sobre comprar dólar. Dólar/real caiu para R$ 5,00, tá caro? Compro ou vendo? Dólar/real subiu para R$ 6,00, tá caro? Compro ou vendo? O engraçado é que acredito que mais de 90% das pessoas não têm a alocação em moeda estrangeira que deveriam ter. Nesse caso, a disciplina e o aporte frequente são muito mais importantes. Não importa o preço, compre. Na média vai estar bom. Tenha a alocação necessária. É isso que eu sempre digo. A disciplina vale mais do que o número.

Jojo - A essa altura, nosso leitor do Diário de Bordo já vai ter tido uma verdadeira aula. Como já não vamos falar de Flamengo, então não dá para abusar da oportunidade e não falar de FoF Melhores Fundos também. Vou fazer uma pergunta bem fácil agora. O FoF Melhores Fundos vai continuar voando assim?

Bruno Mérola - Essa é uma das perguntas que mais recebo. E isso tem a ver com o olhar menos probabilístico e mais determinístico. É o que faz a pessoa que entra agora já querer saber o que comprar e o que vai fazê-la ganhar rápido, ignorando a diversificação. Ela chega tentando acertar e não analisa os cenários.

Por exemplo: eu espero que o Melhores Fundos retorne CDI +4% ao ano. Se o assinante ou o cotista me pergunta se vai dar isso mesmo, o que eu respondo? Não sei. É o esperado. Pode ser mais, pode ser menos. Mas na média espero isso. Dito isso, ele tá dando CDI+8% ao ano desde o seu início. Não tem como garantir. Mas tem que saber as probabilidades e não achar que nos próximos 12 meses ele vai necessariamente continuar igual aos últimos 2 anos.

Jojo - Fala um pouco sobre os critérios para a criação da carteira….

Bruno Mérola - Jojo, tenho uma preocupação muito grande em não errar o gestor ou me arrepender de uma indicação.

Já teve situação que ia sugerir um gestor e aos 45 do segundo tempo desisti, e me dei bem por isso. No final acabou sendo a melhor decisão. Tenho a sorte de nesses dois anos de Empiricus não ter acontecido nada muito significativo. Claro que vale mencionar o momento dificílimo da pandemia, tivemos uma queda relevante (mais de 12% ali no meio de mar/20), mas a recuperação foi rápida, e o FoF Melhores Fundos foi o de melhor desempenho do Brasil em 2020.

Não vamos acertar sempre. O erro vai acontecer em algum momento, inevitavelmente. Mas por isso a gente indica pouco e segue um critério muito rigoroso.

São mais de 600 gestores no mercado. A gente cobre uns 300, mas só indica 15 fundos multimercados e uns 20 fundos de ações. E o próprio nome da carteira diz, são “os melhores fundos”. Não dá para não manter essa barra de corte lá no alto.

Temos uma exigência alta para começar a mirar um gestor, pra que ele passe a ser analisado mais frequentemente até que a gente decida ou não se ele viria a integrar a carteira (se houver necessidade). Claro que deixamos passar gente muito boa. Mas aí é sempre cometer o erro tipo 2 e não o erro tipo 1, né. É melhor tomar como falso algo que é verdadeiro do que o contrário. E acredito que a gente vem acertando a mão, e os assinantes da série e os cotistas têm gostado do resultado.

Jojo - Bom, o papo tá ótimo. Desde já, te adianto que vou ter trabalho de deixar algumas coisas de fora. E, como sempre faço nas Lives, queria pedir suas considerações finais e dizer o que você achou de a gente não poder falar do Flamengo no papo de hoje.

Bruno Mérola - Sabe que eu não tenho acompanhado o Flamengo com tanta frequência? Acho até que isso acabou ajudando. Mas vamos ver aí… Tá chegando a próxima fase da Libertadores e da Copa do Brasil, talvez o assunto volte com mais força.

Mas, antes de deixar minha mensagem final para o leitor do Diário de Bordo, queria te agradecer de novo pelo papo e por tudo isso ter começado com um elogio seu ao meu texto. Você é um dos caras que mais entendem de fundos no Brasil. Criou a estrutura de FoFs há 20 anos, e eu ouso dizer que uma qualidade em comum que nós temos (e de que eu gosto muito) é que a gente tem uma cabeça mais focada na alocação. Fundo é o veículo que a gente usa para fazer a alocação. Então, além dos gostos por Flamengo, investimentos, ter essa característica em comum é algo que eu valorizo bastante como profissional.

Para o leitor do Diário de Bordo, deixo aqui o desejo de que busque sempre pensar de forma probabilística em vez de determinística. A cabeça probabilística tem uma relação fortíssima com a diversificação.

Desejo também que ele entenda que nem sempre o resultado traduz a evolução do processo. Processo requer boa análise, disciplina e longo prazo.

E, por fim, mas não menos importante, que busque a relação entre causa e consequência.

Leia o Diário de Bordo na íntegra:  clique aqui. 

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