Em pé no alto do escorregador, Tengo observou, durante um bom tempo, a lua.
Do anel viário da linha 7 ouvia-se um barulho semelhante ao ruído do mar, uma mescla de sons de diversos carros. Eles fizeram com que Tengo subitamente se lembrasse de seu pai na casa de saúde à beira da praia de Chiba.
A luz da cidade, como sempre, apagava o brilho das estrelas. O céu estava bem claro, mas dava para ver algumas poucas estrelas especialmente brilhantes em diversos pontos no céu. Mas a lua brilhava com todo o seu esplendor. Ela pairava com retidão sem reclamar das outras luzes, do barulho e da poluição do ar. Ao forçar a vista dava para ver as estranhas sombras formadas pelas gigantescas crateras e vales. Enquanto observava inocentemente o brilho da lua, Tengo despertou em seu interior um tipo de memória ancestral: a lua sempre fora amiga dos homens, desde antes da descoberta do fogo, das ferramentas e da linguagem. Ela sempre iluminou a escuridão do mundo com sua luz natural, amenizando o medo dos homens. As fases da lua proporcionaram a noção de tempo. A gratidão por essa misericordiosa compaixão devia estar fortemente impressa nos genes da humanidade, como uma cálida memória coletiva, a despeito de, hoje em dia, a escuridão ter sido expulsa em grande parte do mundo.
Pensando bem, fazia muito tempo que Tengo não contemplava a lua com tanta atenção. Já nem se lembrava de quando fora a última vez que olhara para ela. Na correria do dia a dia, as pessoas viviam com os olhos voltados para o chão. E se esqueciam de olhar para o céu noturno.
Foi então que Tengo percebeu que, num canto do céu, bem próximo à lua, havia uma outra lua pairando. No começo, achou que era uma ilusão de ótica, ou um tipo de ilusão provocada pela luz. No entanto, depois de olhar várias vezes, constatou que havia uma segunda lua com contornos bem definidos. Tengo ficou perplexo e, com a boca entreaberta, observou a direção em que se encontravam as luas. Sua mente não conseguia processar o que ele via. Não conseguia associar o contorno e a essência, como ocorre quando o conceito e a palavra não conseguem sintetizar uma unidade.
Mais uma lua?
Tengo fechou os olhos e massageou vigorosamente o rosto com a palma das mãos. “O que está acontecendo co-migo?”, pensou. Ele não tinha bebido muito. Respirou calma e profunda-mente. Certificou-se de que seu estado mental estava normal. Com os olhos fechados, no breu, tentou novamente se certificar de quem ele era, onde estava e o que fazia: setembro de 1984, Tengo Kawana, bairro de Kôenji, distrito de Suginami, parque infantil, e contemplava a lua no céu. Não havia dúvidas. Em seguida, abriu os olhos lentamente e, de novo, olhou o céu com o coração sereno e atento. As duas luas continuavam ali.
Não era uma ilusão de ótica. Havia duas luas. Tengo manteve os punhos fortemente cerrados.
A lua continuava silenciosa, mas não estava mais sozinha.





