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Anotações de viagem

Isso é um presente que me dou, ou um castigo que me imponho?

Aqui estou, em Frankfurt. Minha última manhã antes do trem que me levará à Floresta Negra, onde encararei um retiro do silêncio que durará dez dias, no centro europeu do Arte de Viver.

Não é a primeira vez que encaro a parada, na verdade é a terceira vez que participo do curso que religiosamente acontece duas vezes ao ano.

Apesar de ter gente de todo o mundo (historicamente cerca de 100 participantes de quase trinta países), devo novamente ser o peregrino a se locomover de mais longe. São doze horas de avião e algumas mais de trem até a pequena estação de Oppenau, a mais próxima de Bad Antogast, onde fica um antigo spa de luxo, que há pouco mais de cento e cinquenta anos recebia o homem mais rico do mundo, o Czar Alexandre II, para desfrutar (em meio às luxuosas instalações) da água férrea tida como miraculosa e terapêutica, e que hoje é pouco recomendada.

A propriedade secular que chegou a ficar sucateada, depois de servir como hospital durante a primeira guerra, foi comprada pela fundação em 1995 e posta de volta em operação, pela labuta de voluntários, sem o luxo de outrora.

Tudo isso acontece por que o homem por trás de tudo isso, o Guru indiano Sri Sri Ravi Shankar (fundador do arte de viver) decidiu, como missão de vida, compartilhar com a humanidade técnicas de meditação milenares que ele engenhosamente reinventou e empacotou em poderosos cursos que trazem alívio para vários de nossos males.

Antes de me despedir da civilização e abraçar essa aventura, prezei por um bom hotel, com café da manhã incluso… claro! E esse último luxo que agora me permito, apenas agrava a questão que irremediavelmente se impõe: por que me impor a essas restrições?

Isso é um presente que me dou, ou um castigo que me imponho?

Como bom leitor de Dostoievski não me furto a perceber os dois lados. A prática do desapego fundamenta toda grande sabedoria milenar, e universalmente toda ordem monástica. E, não duvidem, há motivos práticos para isso.

  1. Separar quem sou de tudo que tenho. Não é que eu não me orgulhe de tudo que construi, me sinto muito realizado e agradecido, mas o cotidiano tende a esvaziar o sentido, ele obscurece o valor. Faz com que tomemos por certo (take for granted) tudo que temos. Não atoa a poesia acontece no exílio, na distância, na falta.
  2. Limpar a memória ram. Apesar de não perceber, conversamos com nós mesmos todo o tempo. Como hal 9000, (de 2001 Uma Odisseia no Espaço), um computador pilota nossa nave. E no isolamento, em meio a exposição continua apenas as nossas próprias vozes internas (sem rebater cada pensamento com um novo estimulo), uma dinâmica de interiorização inevitavelmente acontece. Meditar não é a ação de não pensar em nada, ou de negar os pensamentos, mas de não interceder, de observá-los como um terceiro de si. Esse silencioso terceiro, pasmem, é você mesmo.
  3. Fazer o tempo operar noutra velocidade, e nesse “espaço temporal” alargado, ter uma sensação de permanência e perenidade. É assustador ver que o ano de 2022 acabou de começar e que já estamos em abril. E que após reiteradamente esquecer a idade eu tenho, numa sensação desesperadora de total descontrole sobre a vida, descubro que há cheguei aos 44. E que nessa justa idade Nietzsche escrevia sua biografia, (Eis o Homem), sua última obra relevante antes de ser consumido por uma doença que o levou a insanidade.
  4. Por fim, perder uns quilinhos, ganhar vitalidade, ressintonizar com o corpo, e reaver a mobilidade e inteireza dessa máquina que me faz um vivente. Todo esse processo mexe com o sistema límbico e o metabolismo. A alimentação controlada, toda a sequência de atividades que incluem dinâmicas, meditação e yoga é um programa impecavelmente desenhado. É garantida a noção de que a vida se dividirá entre um antes e um depois do curso.

Mas tudo isso, claro, é apenas para eu poder voltar. A viagem não é para ter essas revelações lá nas montanhas, distante da vida que construí. Mas poder trazer de lá tudo isso. Desfrutar dessas realizações junto a minha esposa e filhas, junto aos amigos e família, em meio ao trabalho que tanto importa e que dá sentido a minha existência.

Bom seria ter os benefícios sem me expor a esse longo processo. Mas é preciso honrar a conquista, sair da zona de conforto para reencontrar-se renovado. Afinal, quem renasce em si, se reconecta com as poderosas forças do universo.

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