Não sei por que aquela mulher está chorando. Não sei por que ela me olha com cara de quem quer me engolir. Nem sei por que, com a mão trêmula, acaricia o curativo do meu pulso.

Meu pulso está bem. Não sinto nenhuma dor. É o peito que me dói.

Tenho alguma coisa entalada na boca do estômago. Não sei o que é. Mas está sempre aqui. Mesmo depois de parar de usar sutiã, não deixei de sentir esse incômodo. Por mais que respire fundo, esse aperto no peito não passa.

Gritos e choros se sobrepõem e ficam encravados aqui. É por causa da carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui. Tenho certeza. Sangue e carne foram digeridos e se espalham por todos os cantos do meu corpo; os resíduos foram colocados para fora, mas as vidas insistem em obstruir o plexo solar.

Ao menos uma vez, uma única vez, eu queria gritar bem alto. Queria sair voando pela janela escura deste quarto. Será que assim essa massa que me aperta o peito vai sair do meu corpo? Será que isso é possível?

Ninguém pode me ajudar.
Ninguém pode me salvar.
Ninguém pode me fazer respirar.

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