A infância é longa e estreita feito um caixão e não dá para escapar dela por conta própria. […] Não dá para escapar da infância e ela nos acompanha como um cheiro. Dá para percebê-la em outras crianças, e cada infância tem seu próprio cheiro. Não conhecemos a nossa e às vezes temos medo de que ela seja pior que a dos outros. A gente vai e fala com outra garota cuja infância tem cheiro de cinza e carvão, e de repente ela dá um passo atrás, pois sentiu o fedor pavoroso da nossa própria infância. Disfarçadamente, você observa os adultos. […] Olhando para eles, não percebemos que eles tiveram uma infância — e não temos coragem de perguntar como fizeram para atravessá-la sem que o rosto deles guarde cicatrizes e marcas profundas deixadas por ela. Você tem a impressão de que eles utilizaram um atalho secreto para chegar a sua figura adulta muitos anos antes do tempo. Fizeram isso num dia em que estavam sozinhos em casa com a infância oprimindo seu coração.

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