(Texto de Davi Medeiros)
Em novembro do ano passado, o exército alemão elaborou um plano de operações para contenção de danos em caso de guerra generalizada na Europa. Os principais jornais de língua inglesa publicaram dezenas de análises sobre o risco (cada vez mais tangível) de uma ofensiva nuclear encabeçada por Vladimir Putin e reproduzida ao gosto das alianças militares do Ocidente, neste que foi um dos principais temas da imprensa estrangeira em 2024. Ainda assim, a eclosão de um conflito mais abrangente parece distante dos assuntos da ‘vida real’.
Em Reparação (Companhia das Letras), de Ian McEwan, um grupo de jovens dá de ombros quando um empresário do ramo dos chocolates alerta que a guerra na Europa se aproxima. O livro se passa em 1935, quatro anos antes de Adolf Hitler invadir a Polônia, e o personagem relata que há conversas com o governo britânico para incluir barras do doce nos kits de suprimentos dos soldados, que precisam estar preparados para longas estadias fora de Londres.
Mas nada disso parece grave naquele momento. A cena em questão se passa à beira da piscina em um aguardado dia de verão na casa de campo dos Tallis, uma família rica e conservadora da Inglaterra do século XX. Na cabeça dos personagens, graves mesmo são os dilemas pessoais pelos quais estão passando — uma moça recém-formada em Cambridge e que não se identifica com a família como antes; um rapaz ansioso para começar um curso de Medicina bancado pelo patrão de sua mãe; e o mais importante: uma menina de 13 anos prestes a deixar a infância para trás, mas que ainda não entende as nuances e contradições do mundo dos adultos.
A guerra é instaurada na família quando esta menina interliga, em sua cabeça ainda infantil, uma série de acontecimentos que presencia ao longo de um único dia e acusa o rapaz de um crime hediondo. O mal-entendido é um pretexto para o autor tratar do desconforto de classes presente na história da Inglaterra. O rapaz é o filho da empregada, criado de favor na casa dos Tallis e que depende da bondade da família para cursar Medicina, mas que até então havia vivido quase como se fosse um deles. Ele então é condenado à prisão, de onde só sai quatro anos depois, justamente para lutar contra a Alemanha.
Ian McEwan narra em riqueza de detalhes os acontecimentos que precedem a acusação. O autor dedica cerca de 200 páginas a um único dia na vida dos Tallis, recontando os mesmos episódios a partir de vários pontos de vista. Tem espaço para fluxos de pensamento surpreendentes, como quando a menina de 13 anos, que sonha em ser escritora, se questiona se todos se sentem tão “ela” quanto ela mesma, ou quando ela abandona definitivamente um projeto que até minutos antes era o mais importante de sua vida. Os trechos do amadurecimento dessa personagem são os mais interessantes da primeira metade do livro.
Mas também há espaço para longas e cansativas descrições sem importância, como quando o autor gasta mais da metade de uma página descrevendo uma batata.
Na segunda metade da história, acompanhamos a degradação de uma família que se despedaçou após a acusação falsa da personagem principal, que tenta se redimir de seu erro. Aqui, o maior trunfo do autor é a sensibilidade com que aborda os sentimentos dela, agora uma mulher, ainda com anseios de escritora e cujo drama familiar contribuiu para enriquecer sua capacidade literária.
O cenário acompanha a ruína da família — existe um contraste relevante de textura entre o verão ensolarado de 1935 e a devastação da Europa no pós-guerra.
É muito eficiente a forma como McEwan trabalha o psicológico dessa personagem como um aspecto central da trama. Afinal, nada teria acontecido se ela não tivesse a personalidade de uma artista, se preencher lacunas narrativas e criar histórias a partir de fragmentos não fosse intrínseco à sua mente de escritora desde criança.
Fica claro, com a leitura deste livro, como um escritor precisa ser antes um grande observador, sobretudo de si mesmo e de suas próprias experiências, para criar personagens como os que estão expostos em Reparação. Ainda me falta ver o filme, mas acho improvável que faça jus à autenticidade como o livro retrata os sentimentos de uma pessoa.






