Olha o juro real passando!

A possibilidade de ganhos (ou recuperação forte) justifica uma alocação balanceada (ou diversificada), incluindo Renda Variável na carteira e evitando concentrar tudo no convidativo juro real “gordo” que voltamos a experimentar aqui no Brasil

Fui almoçar com um amigo meu na terça-feira. Desde o início da pandemia não nos víamos.

Ele também trabalha no mercado financeiro, aqui perto, na Faria Lima também (esse segundo “também” tem um gostinho especial, porque desde o início deste mês todos nós das áreas de Gestão, Wealth e Backoffice da Vitreo, estamos de endereço novo).

Além da afinidade pessoal, temos uma afinidade profissional, porque ele hoje trabalha com análise e seleção de gestores internacionais, em uma conceituada gestora local, algo que eu fiz durante muito tempo na minha carreira.

Falamos sobre família e filhos, sobre trabalho durante e pós-pandemia e, por fim, sobre mercado.

Ele, assim como eu, aprendeu e acredita que os nossos investimentos não podem estar concentrados no Brasil. Seja por conta da pequena relevância da nossa economia global, seja pela fragilidade histórica da nossa moeda. Então para ele, praticamente todo dinheiro que sobra, vira investimento no exterior, em moeda forte.

Além disso, dada sua formação como analista de ações (era isso que ele fazia antes de ser alocador em fundos), seus investimentos têm um viés natural para Renda Variável. Na sua carteira estão alguns gestores bem conhecidos por aqui, como Dynamo, Atmos e Velt (os últimos dois presentes nos nossos FoF Melhores Fundos e FoF SuperPrevidência), e o restante em renomados gestores internacionais.

Até aí, nenhuma novidade. Mas eu trouxe isso, porque no meio da nossa conversa, quando estávamos justamente falando sobre as alocações nos nossos portfolios pessoais, ele soltou o comentário que reflete de forma muito direta a situação (e dúvida) do investidor brasileiro: “mas será que não vale a pena investir em uma NTN-B longa e garantir um juro real de 6% por mais 30 anos?”

Essa é a dúvida de todos os investidores, agora. No decorrer da conversa eu comentei com ele dos investimentos que venho fazendo para os meus filhos nos últimos 15 anos.

Eu comecei a investir para Naomi e Michel perto do início da BAWM, ainda em 2005. Nos primeiros anos, todo dinheiro aportado (comecei fazendo isso mensalmente e depois passei a semestral, junto com os pagamentos de bônus que eu recebia) iam para as NTN-Bs (títulos públicos federais atrelados à inflação).

Nos primeiros anos “surfei” um período de juros reais bem gordos, que chegaram até quase 9% no final de 2009. Dali para frente, as taxas de juros reais no Brasil caíram, quase que continuamente, até 2013, ficando abaixo de 4%.

Nessa época eu decidi trocar os investimentos dos meus filhos, porque achava que o movimento de “fechamento” das taxas tinha terminado. Eu estava certo. Dali até meados de 2016, o juro real longo no Brasil subiu de novo, até quase 8%. Você pode ver esse histórico no gráfico abaixo que mostra o juro real da NTN-B com vencimento em 2045.


O problema foi que errei na troca.

Escolhi migrar os recursos para Bolsa. Até participei de uma matéria no Valor Econômico, no Dia das Crianças, falando sobre isso. Digo que errei porque o Ibovespa de 2013 até 2016 só caiu (perto de -20% no período), enquanto o Dólar (esse deveria ter sido o cavalo escolhido) subiu 100%, saindo de R$ 2 para R$4!

Depois, eu reajustei a rota, rebalanceei a carteira deles, recompondo parte da alocação em NTN-Bs, não saindo integralmente da Renda Variável e adicionando exposição ao Dólar também. Contei essa história para a Mara Luquet em uma entrevista para a GloboNews em Pauta, em 2016, mas o vídeo não está mais no ar.

O gráfico abaixo mostra a evolução acumulada do CDI, da NTN-B longa, do Ibovespa e do Dólar nos últimos 15 anos.


Não dá para negar que o juro real no Brasil foi o grande trunfo na alocação dos investidores, nesse período. Por isso é que mesmo o meu amigo, super treinado e profissional do mundo da Renda Variável, olha para as oportunidades atuais e fica na dúvida se o melhor caminho não é, de novo, abraçar os 6% ao ano, por longos anos.

Mas a decisão não é tão simples quanto parece, mesmo. Logo depois na mesma conversa, ele completa “mas basta um período bom de Bolsa para mudar tudo”.

E não é exatamente isso que estamos vendo nas últimas semanas?

Se por um lado as incertezas do cenário continuam bem presentes (e não são poucas: desfecho da guerra na Ucrânia, quando terminarão os ciclos de alta de juros mundo afora para combater as altas taxas de inflação, se esse “remédio” escolhido pelos Banco Centrais vai empurrar as economias para uma recessão global, tensão entre China e Taiwan, quem leva a eleição para presidente no Brasil e o que isso significará para o futuro do país e da condução da nossa economia, qual o impacto dos problemas no setor imobiliário chinês para a economia deles e para o mundo todo), por outro lado, o mercado começou o segundo semestre com um importante movimento de alta nos preços dos ativos de risco, tanto lá fora, quanto aqui.

Seja por achar que os preços já estavam baixos e atraentes o suficiente ou por uma crença fiel que o Fed e outros bancos centrais vão acertar a dose perfeita de juros para uma aterrisagem suave das economias, os ativos de risco reagiram: Ibovespa sobe nas últimas semanas, S&P500 também, criptomoedas também e por aí vai.

Olhe o gráfico do Oportunidades de uma Vida e você pode ver isso que eu estou falando. No ano até o dia 14/07 (a menor cota do fundo neste ano) o fundo caía -13,83%. De lá até ontem, 10/08, o fundo sobe 20,45% e agora já está com alta de quase 4% no ano e deve, em breve, já superar o Ibovespa no ano (que também se recuperou bem nas últimas semanas).


Como disse meu amigo, é essa possibilidade de ganhos (ou recuperação forte) que justifica uma alocação balanceada (ou diversificada), incluindo Renda Variável na carteira e evitando concentrar tudo no convidativo juro real “gordo” que voltamos a experimentar aqui no Brasil.

Bom, por hoje é isso. Fico por aqui, desejando um ótimo Dia dos Pais para você. Eu vou curtir com o meu super-herói preferido, meu exemplo, meu porto seguro, meu pai. E claro, agarrado nos meus filhotes, também!

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