A falta de reconhecimento do esforço e da competência de alguém no local de trabalho costuma provocar sofrimento nos “injustiçados”. Por outro lado, também elogios e condecorações de chefes e empregadores a quem supostamente não os merecia geram ainda mais dor de ego ou de cotovelo dos não-reconhecidos. Para completar, os ambiciosos que se esforçam para receber e exibir carimbos de “honra ao mérito”, imerecido ou não, irritam.
Essas asperezas corporativas que vieram do século passado e ainda grassam no atual conspiram contra a harmonia geral e a retenção de talentos. Mas, sobretudo, elas desperdiçam muita energia das equipes. Ao longo de minha carreira procurei não cair na armadilha dos ciúmes com o afago em colegas e nunca alimentei expectativas de feedback positivo dos superiores. O ideal é operar a 100% da capacidade e mirar além da fábrica ou do escritório.
Num dos escorregões que tive após ser empurrado pela mosca azul da firma foi quando me candidatei a herdar a baia de redação de um editor do jornal onde trabalhava e que estava rumando para o concorrente. Ganhei o lugar privilegiado, com vista para o poluído Rio Pinheiros, na capital paulista, e o transformei numa “casinha bem arrumada”, na troça geral. Me peguei azedo com alguém querido ao cismar que perderia a mesa com divisórias. Ridículo!
Um velho amigo, Armênio Guedes, o jornalista mais experiente do país à época, brincou: “Meus parabéns, ganhou a chave do banheiro da diretoria”. Ele fazia alusão a “Se Meu Apartamento Falasse” (1960), comédia clássica de Billy Wilder estrelada pela dupla Jack Lemmon e Shirley MacLaine. Nele, um funcionário ambicioso (Lemmon) descobre um atalho para subir na empresa, cedendo o endereço para encontros amorosos dos chefes.
Anos antes, declinei da oferta do diretor da sucursal onde passei de ganhar um “aquário” na sala a ser dividida com outros dois repórteres. Respondi que não fazia qualquer sentido a separação de vidro porque eu era o capitão do time e não o maestro da orquestra. Estava preocupado com o que entregar e não com a estante de troféus. A lição que dei, desaprendi, para depois não mais esquecer. O diabo dizia noutro filme que a vaidade é seu pecado predileto.



