A multiversidade no meio de nós

O ciberespaço está presente em quase tudo que fazemos. Estudo, trabalho e relações pessoais já têm pelo menos um dos dois pés no meio digital

Por muito pouco aquele pré-adolescente que passava ao meu lado na rua não enfiou tragicamente o pé direito num bueiro destampado por absoluta distração com o celular. Com a cabeça tomada pela música em alto volume que saía dos fones de ouvido, uma garota quase foi atropelada no parque por não ter ouvido os insistentes sinais sonoros da bicicleta que lhe cruzou a frente. Testemunhei ainda um mote pra meme, de plateia adulta curvada olhando para telinhas nas mãos enquanto o palestrante falava no palco.

Tais situações me levaram a endossar interessante análise de um psiquiatra sobre os rumorosos debates em torno de oportunidades e riscos gerados pelo chamado Multiverso. Ele sustentava que não haverá em breve a tal migração desembestada de serviços e varejos, bem como de interações sociais, para ampla e multifacetada plataforma imersiva na internet. Isso porque a multiversidade já está no meio de nós, ditando um estranho ritmo de vida. A analogia que faço é a de restar apenas submergirmos a cabeça na banheira.

O ciberespaço está presente em quase tudo que fazemos. Estudo, trabalho e relações pessoais já têm pelo menos um dos dois pés no meio digital. Procuramos, contratamos e pagamos via dispositivos conectados à web. Com isso também, como efeito colateral dessa dependência, é muito difícil ver alguém mirando o pôr do sol do banco do carona no carro, puxando conversa com o vizinho de fila de caixa ou vivenciando algo divertido sem sentir a compulsão de mostrar ao mundo que, sim, está agora se divertindo.

Real e virtual vêm se misturando tanto na nossa rotina que sequer sabemos avaliar com clareza se nossas listas indexadas de contatos são mesmo produtivas. E um dia feliz torna-se muito raro, como sugere o Jota Quest, quando ficamos procurando demais felicidade no espaço entre nossas fatigadas retinas e a tela do iPhone. Quer uma prova? Sinto-me assaltado pela tristeza toda vez que sou alertado pelo Facebook do aniversário de alguém dos meus afetos e verifico que o último contato que tive com ele foi há exatamente um ano.

A ilusão de mantermos permanente conexão com mais de mil amigos acaba logo num teste de consistência de relacionamentos. A superficialidade rima com hiperconectividade quando essa última nos dá falso conforto de ter “a galera toda” ao alcance do clique. Por isso é assustadora a situação do internauta felicitando um conhecido seu no perfil desse da rede social pelo aniversário apesar desse titular da conta já ter falecido faz muito tempo. Quem percebe a falha avisa então o ingênuo comunicante da lamentável inexistência do comunicado. Será que, em breve, quando trafegarmos pelas calçadas viraremos avatares de nós mesmos?

Minha esperança final está na frase do personagem criador do Metaverso do livro/filme “Jogador Número Um” sobre a validade superior de desfrutar a vida no mundo real, porque, entre outras coisas, “é o único lugar onde se pode comer uma boa refeição”. Não tem jeito: simulacro é simulacro, vida é vida.

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