Sobre Amor e Capital

O que poderia trazer mais uma biografia de Marx? Surpreendentemente, muita coisa. Coisas que até o ChatGPT desconhece!

O que poderia trazer mais uma biografia de Marx? Surpreendentemente, muita coisa. Coisas que até o ChatGPT desconhece! A mais bombástica delas: a tese cada vez mais consolidada de que Marx teve um filho bastardo com a governanta da casa, babá das filhas, conhecida como Lenchen (Helene Demuth). Passado o estrondo (afinal a controversa já rende décadas), esse tampouco seria o único motivo. A escritora americana Mary Gabriel, ao dar luz a história com um olhar feminino, traz à frente as mulheres: a esposa, Jenny Von Westphalen e as três filhas, Jennychen, Laura e Tussy (Eleonor), além dos fiéis amigos dedicados a causa do comunismo, que ampliam a família. O drama familiar e o drama histórico se entrelaçam com ação suficiente para enredar várias temporadas no Netflix, fosse o caso.Se engana quem acha que essa biografia é gasolina para detratores. Ao valorizar o lado humano temos a chance conciliar vida, obra e principalmente a época. E como Marx mesmo disse em carta ao genro, Paul Lafargue: “Se existe uma coisa certa é o fato de que eu não sou marxista.”    Mas nem tudo são flores, a história de amor entre Karl Marx, filho de um judeu convertido ao protestantismo para exercer a advocacia, com a aristocrata Jenny Von Westphalen, quatro anos mais velha, linda e inteligente, numa Trier que aspirava os ideais iluministas, é apenas o começo. As privações e provações que os guardam são inúmeras. Nela vemos um rapaz intelectualmente prodigioso, egoísta e dado a boemia ser vítima da própria petulância, mas sem nunca se acovardar. Saindo de Trier para estudar em Bonn e depois em Berlim, vê fechadas as portas para uma carreira acadêmica por conta das suas posições políticas.Em Colônia, Morh (ou o mouro), como era conhecido, assume o jornalismo como profissão, casa-se e edita a Gazeta Renana, uma publicação liberal, que mais adiante será censurada.    De Colônia, o casal parte para Paris, onde Marx assume um projeto editorial ousado. Nesse período, sua cidadania prussiana é cassada. Expulso também da França, refugia-se na Bélgica e, finalmente, em Londres. Na Inglaterra, afunda em dívidas, miséria, encara a fome, doenças e lutos. É salvo pela generosidade de amigos, pelo companheirismo de Jenny e por várias heranças que, em boa hora, tiram a família do buraco financeiro. É certo que Marx não sabia lidar com dinheiro.   Apesar de não mostrar arrependimento por suas escolhas, Marx e Jenny queriam as filhas bem-casadas, desfrutando de um bom status social e de uma reconfortante vida burguesa. Contudo, não foi isso o que aconteceu. Amor e Capital se debruça também sobre as dolorosas vidas dessas interessantes e avançadas mulheres.No final da vida, gozando de uma situação financeira mais estável, Marx buscou sair da política partidária, onde exerceu pulso forte, para dedicar-se a sua inacabada obra, O Capital.    Uma coisa que não deixa de impressionar é como essas vidas eram bem documentadas por cartas. Algumas ainda permanecem guardadas num cofre antibombas, no Arquivo do Estado Russo de História Social e Política. O acesso a muitas delas ficou por décadas restrito para não deixar a vida do homem manchar a imponência da obra. Outras inúmeras cartas encontram-se em Amsterdam, no Instituto Internacional de História Social. Enquanto relutantes monarquias caíam e frágeis repúblicas tentavam ficar de pé em meio a violentas crises econômicas, Amor e Capital, lançado no Brasil em 2013, traz a história sofrida de um homem e sua família que, diante de um mundo que colapsava, sonhava com uma sociedade mais humana e justa.Idealismo, egoísmo, amor, ressentimento e (por fim) solidariedade são os ingredientes subjacentes nesse microcosmo onde surge a versão dominante do comunismo que tão fortemente protagonizará no século seguinte.

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