A greve é uma das ferramentas mais antigas de pressão dos trabalhadores por salários, direitos e melhores condições de trabalho. Sua força sempre esteve baseada em uma lógica relativamente simples: se os trabalhadores param, a produção para. Numa fábrica, a linha deixa de funcionar. Na logística, caminhões deixam de circular. Em uma escola, as aulas não acontecem. Mas o que acontece com esse instrumento em uma economia cada vez mais digitalizada, na qual sistemas são construídos justamente para continuar funcionando sem intervenção humana?
Essa é uma das questões levantadas por JS Tan e Clarissa Redwine em uma análise publicada pela revista americana Dissent sobre a organização dos trabalhadores de tecnologia nos Estados Unidos. Em empresas digitais, a relação entre hora trabalhada e produção é diferente daquela existente na economia industrial. Engenheiros passam boa parte do tempo criando, programando e automatizando sistemas que, uma vez em funcionamento, não dependem de sua presença permanente. Paradoxalmente, o trabalhador pode entrar em greve e descobrir que aquilo que construiu continua funcionando sem ele.
A questão ganhou relevância depois de um período de forte mobilização dentro das empresas de tecnologia. Entre 2017 e 2019, o número de ações coletivas de trabalhadores do setor nos Estados Unidos saltou de apenas quatro para quase 50. Funcionários de Google, Amazon, Microsoft e outras gigantes assinaram cartas abertas, organizaram paralisações e passaram a questionar contratos militares, políticas ambientais e condições de trabalho. Parecia nascer um novo movimento trabalhista dentro de um setor historicamente resistente à sindicalização.
Inicialmente, boa parte dessa pressão explorava outro ponto vulnerável das empresas que é a reputação. Cartas abertas, protestos e reportagens negativas tinham potencial para constranger companhias que cultivavam uma imagem progressista. Depois, a estratégia avançou para a sindicalização formal. Em 2020, funcionários da plataforma de crowdfunding Kickstarter conquistaram o primeiro sindicato que representava trabalhadores de diferentes funções de uma empresa de tecnologia nos Estados Unidos. Em seguida, até o fim de 2021, uma dúzia de novos sindicatos do setor havia conquistado reconhecimento.
Mas o movimento perdeu força. O texto da publicação norte-americana atribui parte dessa mudança ao próprio mercado de tecnologia. A partir de 2022, juros mais altos, congelamento de contratações e grandes ondas de demissões reduziram a segurança dos profissionais e tornaram a participação em protestos internos mais arriscada. Há, porém, um problema mais estrutural. Algumas das formas tradicionais de organização trabalhista foram concebidas para uma economia muito diferente da digital.
A greve dos profissionais de tecnologia do New York Times, em 2024, ajuda a ilustrar essa dificuldade. Os trabalhadores escolheram para a paralisação justamente a eleição presidencial americana, um dos períodos de maior audiência do jornal. A greve tinha apoio de 95% dos integrantes do sindicato. Ainda assim, os principais produtos digitais continuaram funcionando e as fontes centrais de receita não foram interrompidas. Depois de mais de mil dias de negociação, o grupo chegou a um acordo que incluiu aumentos salariais de até 8,25%, proteções contra demissões sem justa causa, remuneração adicional por plantões e maior flexibilidade no trabalho híbrido. Para tantos dias de negociação, os resultados não foram muito satisfatórios.
A organização coletiva enfrenta ainda características particulares do setor. A permanência média dos profissionais nas empresas de tecnologia é relativamente curta, de dois a três anos, segundo a Dissent. Uma mesma companhia também reúne engenheiros, designers, gerentes de produto e dezenas de outras funções espalhadas por equipes, cidades e fusos horários. O problema capaz de mobilizar um engenheiro pode ter pouca importância para um gerente de produto. Encontrar uma reivindicação comum torna-se mais difícil.
Posto tudo isso, é importante pontuar que as mobilizações ainda sobrevivem. Uma pesquisa acadêmica publicada na ILR Review, baseada em 175 ações coletivas de profissionais de tecnologia nos Estados Unidos entre 2014 e 2022, identificou uma mudança nas reivindicações. Se no início predominavam protestos relacionados a questões sociais e éticas, ao final do período ganharam espaço temas mais diretamente ligados ao trabalho, como salários, benefícios, jornada e condições de emprego.
A inteligência artificial pode tornar essa discussão ainda mais relevante. Automação, demissões e novas formas de organização do trabalho colocam segurança no emprego e poder de decisão no centro das preocupações de profissionais que, durante muito tempo, contaram com salários elevados e grande capacidade individual de negociação.
A contradição é interessante: quanto mais eficiente se torna a tecnologia em manter uma empresa funcionando sem intervenção humana, menor pode ser o impacto imediato de trabalhadores decidirem parar. A greve não necessariamente perdeu sua capacidade de pressão, mas a digitalização coloca em questão um de seus fundamentos históricos que é justamente a capacidade de interromper a produção.
Este texto foi elaborado a partir da reportagem “Rebooting the Tech Worker Movement”, de JS Tan e Clarissa Redwine, publicada pela revista americana Dissent.







