À primeira vista, Mycetes, trabalho do fotógrafo brasileiro Rodrigo Capote, parece uma publicação dedicada a cogumelos. Basta começar a folheá-la, porém, para perceber que a proposta é outra. Os fungos são o ponto de partida para a criação de um universo visual próprio, no qual escala, paisagem e realidade deixam de obedecer às regras que conhecemos.

Capote fotografou diferentes espécies de cogumelos e depois deslocou essas imagens de seu contexto original. Em montagens feitas sobre fotografias de florestas, os fungos aparecem em proporções inesperadas: enormes, quase monumentais

O resultado tem algo de surrealista. Um cogumelo que normalmente passaria despercebido no chão da mata ganha a dimensão de uma árvore. Em outras páginas, formas delicadas e pequenas parecem pertencer a uma vegetação de outro planeta. A floresta continua reconhecível, mas alguma coisa está fora do lugar. É justamente essa pequena ruptura com a realidade que dá força às imagens.

Há também um contraste interessante com a trajetória de Capote. Brasileiro radicado na Alemanha, ele tem longa experiência em fotografia editorial e documental. Em Mycetes, no entanto, a fotografia deixa de funcionar apenas como registro e torna-se matéria-prima para construir uma realidade que nunca existiu.

A edição, impressa na Alemanha, reforça essa sensação de estar diante de um trabalho artístico, e não simplesmente de uma revista.

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