O momento atual da história assemelha-se, em muitos aspectos, à segunda fase da Revolução Industrial e à ascensão do nazismo, colocando, ainda que com diferenças, Trump e Hitler lado a lado.
A frase acima pode causar espanto. O objetivo, no entanto, não é traçar uma equivalência direta entre dois líderes, mas identificar condições estruturais semelhantes que favoreceram o surgimento de figuras autoritárias e populistas em contextos de crise e transformação.
A ascensão de Donald Trump — e sua persistência como referência central na política americana e global — é menos uma aberração e mais um sintoma de um mal-estar civilizacional. Esse fenômeno está enraizado em processos profundos: a revolução digital, achatamento da classe média, o colapso da confiança institucional e o retorno de fantasmas ideológicos do século XX.
Abaixo, quatro eixos nos ajudam a compreender as engrenagens do fenômeno histórico em curso.
Disrupção tecnológica e crise de sentido: Assim como a Segunda Revolução Industrial abalou a sociedade do século XIX com a automação, ondas migratórias, revolução midiática, e ruptura de vínculos comunitários, a Revolução Digital — acelerada pela lógica algorítmica — tem provocado um abalo semelhante em nosso tempo.
As promessas de prosperidade e meritocracia colapsaram diante do crescimento da desigualdade, da precarização do trabalho e da dissolução das grandes narrativas de pertencimento. Em seu lugar, surgiram tribalismos digitais alimentados por redes sociais estruturadas em dopamina algorítmica.
Nesse ambiente, o sucesso de Trump não é apenas político: é simbólico. Ao evocar um passado de grandeza perdida com o slogan “Make America Great Again”, ele oferece uma resposta emocional à insegurança e à desorientação contemporâneas. Para milhões de americanos, Trump representa a promessa de reencontro com um lugar no mundo que sentem ter sido roubado.
Corrida tecnológica e ascensão do nacionalismo: Nas décadas que antecederam a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha embarcou em um projeto de industrialização guiado por orgulho nacional e ambição tecnológica. Cenário semelhante acontece hoje, com a ascensão da China como potência global, alimentando uma nova corrida por supremacia tecnológica — em áreas como IA, biotecnologia e automação.
Na tentativa de conter a China, os EUA buscaram promover um boicote ao 5G chinês, proibir o Tik Tok (decisão ainda prorrogada) e bloquearam o acesso aos microchips de última geração.
Trump, mesmo sem perfil tecnocrático, entendeu o apelo simbólico desse conflito. A guerra comercial com a China, e o discurso de “soberania industrial” marcam uma inflexão importante: os EUA voltam-se para dentro, buscando proteger cadeias produtivas, recuperar fábricas e garantir hegemonia em setores estratégicos.
Esse movimento compõe um tecno-nacionalismo agressivo, que rompe com a visão globalista do Vale do Silício e transforma a tecnologia em arma geopolítica e cultural. O Estado se aproxima de grandes empresas não para nacionalizá-las, mas para integrá-las a um projeto de poder — como instrumento de influência global. A lógica do mercado se mantém, mas sob o signo da força e da competição nacionalista, uma das marcas da Alemanha nazista.
Xenofobia como estratégia de coesão: O nazismo encontrou no judeu seu inimigo interno ideal. O trumpismo, em chave contemporânea, atualiza esse mecanismo com outros alvos: imigrantes, refugiados e elites cosmopolitas.
A lógica é clara e eficaz. Primeiro, cria-se um clima de medo e insegurança, associando essas figuras ao crime, ao terrorismo ou à decadência econômica. Em seguida, forja-se uma identidade comum entre os “verdadeiros americanos”. Por fim, mobilizam-se emoções primárias: raiva, ressentimento, desejo de vingança.
O muro na fronteira com o México sintetiza esse imaginário: não apenas uma barreira física, mas um gesto simbólico de reconstrução de fronteiras em um mundo digitalizado e poroso. A retórica da “invasão” migrante, a separação de famílias, as impiedosas investidas do ICE— tudo isso opera como dispositivo de purificação nacional que desumaniza aqueles que não são cidadãos naturais.
Conservadorismo reacionário e populismo autoritário: Trump também marca um ponto de inflexão no conservadorismo americano. O que antes era uma doutrina de moderação institucional, passa a ser um movimento reacionário insurgente, disposto a romper com regras democráticas para preservar uma ordem moral idealizada.
A radicalização evangélica, os ataques sistemáticos à imprensa, à ciência, às universidades e aos tribunais, e a recusa em aceitar resultados eleitorais desfavoráveis são expressões desse novo espírito. Trump transforma o “povo” em um sujeito puro e homogêneo, cuja vontade se sobrepõe às instituições. Ele se posiciona como único intérprete legítimo dessa vontade — quase como encarnação mística do Estado.
Essa lógica é familiar aos estudiosos do autoritarismo do século XX. O populismo conservador não busca apenas impedir o avanço histórico: quer reverter o curso do tempo, reinstaurando um passado idealizado à força, por meio do Estado e de sua capacidade de repressão. Para isso ele abre um canal de comunicação direto, como encarnação heróica de uma causa pela qual se vale morrer, e por meio do populismo desafia os contrapesos institucionais que estabilizam a própria nação, como o descumprimento de decisões judiciais, agressões ao presidente do Banco Central e sobreposições as jurisdições estaduais.
O que quero dizer após listar estes quatro tópicos é que o fenômeno Trump não é um desvio da história — é seu espelho mais fiel neste momento de crise global. Ele revela, com clareza as fissuras do capitalismo contemporâneo, a fragilidade do contrato social liberal e a força de afetos reativos num mundo em colapso de sentido.
Como Hitler capitalizou o ressentimento de uma Alemanha humilhada, Trump mobiliza o desamparo de uma América fragmentada. Ambos se alimentam da nostalgia, da paranoia identitária e da recusa da complexidade moderna.
Entender Trump é, portanto, entender o tempo perigoso em que vivemos. Negar isso é abrir caminho para que novas máscaras encenem os velhos dramas da história.



