Qual é o valor do seu trabalho?

Talento sem esforço não gera resultados consistentes. Quem sonha ser reconhecido pelo trabalho deve saber que não há caminho fácil para isso.

O mercado de trabalho mudou tão radicalmente nos últimos dois anos, em razão do isolamento na pandemia, que os seus elementos essenciais estão também sendo reavaliados. Satisfação pessoal e nível de inclusão de grupos sociais ganharam mais peso, em paralelo à flexibilização de horários e de endereços e à surpreendente onda abandonos de emprego. O próximo desafio poderá ser medir melhor o valor individualizado da hora trabalhada.

Grosso modo, economia aquecida significa salários em alta, bem como vale o inverso. Mas há fatores regulatórios e subjetivos que interferem no preço da mão de obra, com variações conforme o tipo. Exemplo? Em países onde a atividade laboral é menos regulamentada, regida pela lei da oferta e da procura, caso dos Estados Unidos, facilidades de contratar e de demitir até dão ganho maior ao contratado. Mas a contrapartida é a falta de garantias.

A questão que mais me intriga é se a tendência de mais liquidez nas relações entre os necessitados de renda produtiva e os ofertantes de oportunidades levariam em conta os diferenciais extremos dos talentos. Bem comparando, os grandes artistas trabalharam toda a vida como artesãos, em ambientes pouco ortodoxos e com permanente busca do detalhe que faz “a” diferença. Sua hora de labor expressa o valor único do talento esculpido pela persistência.

Para ilustrar isso, gosto de lembrar um caso de Pablo Picasso. Num regular dia de trabalho em Paris, o gênio foi interrompido por uma admiradora. Em seguida, ela suplicou insistentemente para ser retratada. Logo saiu o pedido com o traço inconfundível do espanhol. “Quanto lhe devo?”, perguntou a felizarda. “Cinco mil francos, madame”, respondeu ele. “O quê? Mas você só levou dois minutos!”, rebateu. “Engana-se, levei a vida toda”, arrematou.

Aprender a fazer o seu mister ou descobrir o seu estilo pessoal é resultado de fluxo contínuo, combinando nossas diferentes idades, conhecimentos e destrezas. O nosso gesto mais valioso de trabalho – aquele que surpreende incautos por parecer rápido demais, brotado do “nada” sem rodeios ou rascunhos e oferecido assim de pronto e bem-acabado – deve ser cotado como diferenciado. Assim sendo, merece régua especial de precificação.

Talento sem esforço não gera resultados consistentes. Quem sonha ser reconhecido pelo trabalho deve saber que não há caminho fácil para isso. Mas também quem compra ou contrata por esforços preciosos advindos da experiência de anos e décadas precisa entender que ali encontra-se, sim, a produtividade acumulada. Excelência leva longo tempo a ser percorrido e, ao final, agrega valor excepcional ao negócio onde ela é requerida.

Geoff Colvin, autor de best-sellers, ressalta que a prática deliberada requer a constante melhoria do percebido no cotidiano nos locais de trabalho. Para ele, é preciso estudar, trabalhar e se preparar mais do que a média para ultrapassar a mediocridade. Os Beatles, antes de alcançarem a fama em 1964, já haviam tocado ao vivo por mais de 12 mil horas. Somos, portanto, o que fazemos repetidamente. Excelência não é ato, mas hábito.

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