Por: Yasunari Kawabata
(…) Porque a garota era jovem demais, esse pensamento maléfico tinha queimado o coração de Eguchi. Mas, entre os velhos que visitavam em segredo a casa das “belas adormecidas” havia não apenas os que lamentavam tristemente sua juventude passada, mas também alguns que lá iam para esquecer os males cometidos na vida. O velho Kiga, que apresentara aquela casa para Eguchi, naturalmente não contara nenhum segredo de outros clientes. Por certo, o número deles não era muito grande. E não era difícil imaginas que esses velhos, no ponto de vista mundano, deviam ser vencedores na vida, e não fracassados. Contudo, devem ter conseguido alguns êxitos cometendo o mal, e preservando seus sucessos a custo de males acumulados. Então, eles não teriam paz de espírito, pelo contrário, estariam se sentindo derrotados e aterrorizados. Quando se deitavam em contato com a nudez da jovem mulher, os sentimentos que ressurgiam do fundo do seus âmagos talvez não fossem apenas o medo da morte que se aproximava ou o lamento pela juventude perdida. Talvez houvesse neles também certo arrependimento pelos pecados cometidos, ou pela infelicidade no lar, coisa muito comum na família dos vencedores. Decerto os velhotes não possuíam seu Buda, diante do qual pudessem ajoelhar-se e orar. Por mais que abraçassem fortemente a bela desnuda, derramassem ou berrassem, a garota nada ficaria sabendo e jamais acordaria. Os velhotes não haveriam de se envergonhar nem ficariam com seu orgulho ferido. Estavam inteiramente livres para se arrepender e se lamentar à vontade. Consideradas dessa forma, seriam as “belas adormecidas” uma espécie de Buda? E, além de tudo, um Buda vivo? A pele e o cheiro jovem das garotas seriam, então, o perdão e o consolo desses pobres velhotes. (…)





