Quem encontra Dani dropando uma onda às 6h da manhã, na Praia do Paiva, no Litoral Sul de Pernambuco, não imagina como é sua rotina longe do surfe. Quando está fora do mar, ela se dedica a um mercado em ascensão, mas ainda pouco abraçado pelas mulheres: o de inovação, setor que, apesar da pandemia, deve encerrar 2024 injetando R$ 845 bilhões na economia do país ao final de um período de três anos, segundo levantamento da Associação Brasileira de Empresas do setor de TIC (Brasscom).
Diretora executiva de uma entidade com mais de 2,5 mil associados focada em estreitar relações bilaterais e fomentar negócios entre Brasil e Portugal, Daniela Freire fez a transição de carreira para o setor que mais emprega mão de obra qualificada no mundo, o de tech, quando percebeu que características naturalmente encontradas no sexo feminino eram soft skills incrivelmente ‘raras’ nas empresas de tecnologia.
Jornalista por formação, ela percebeu que aliar seus conhecimentos em marketing à experiência adquirida no início da carreira, montando o plano diretor de pequenas prefeituras, lhe abriam um novo universo profissional. Da elaboração de projetos para automatizar a gestão pública de cidades no interior nordestino, surgiu o contato também com o mundo da inovação, e uma lacuna tornou-se evidente: era preciso aperfeiçoar, também, a mão de obra que sai das universidades sem preparo para atuar no mercado de inovação.
“Uma reclamação geral das empresas de tech é a dificuldade que enfrentam para amadurecer seus profissionais para o mercado, principalmente os recém-saídos das universidades. Geralmente são pessoas excelentes em hard skills, mas que não têm vivência e não se apropriaram das posições que ocupam. Se for uma startup em um ‘early stage’, o profissional precisa saber e fazer literalmente tudo”, destaca Daniela. “Não tem essa de ‘não posso falar, não posso aparecer’. É preciso ter um olhar 360 graus para ocupar estes espaços, e nisso as mulheres estão alguns passos à frente”, reforça.
Uma percepção que não passa despercebida no cenário global. A organização internacional sem fins lucrativos Women in Tech, fundada em 2018, abraçou como causa empoderar 5 milhões de mulheres por meio da tecnologia até 2030. Até agora, a entidade impactou mais de 200 mil profissionais do gênero apoiando o empreendedorismo feminino, envolvendo lideranças globais e promovendo a educação em massa de meninas e jovens, além de formar trabalhadoras para ocupar mais e novos espaços em diversos países.
Em busca desta visão “fora da bolha”, Daniela Freire aplicou para uma vaga numa empresa de Portugal, onde afinou sua percepção sobre posicionamento estratégico e teve seu primeiro contato, de fato, com o mercado de inovação. De volta ao Brasil, ingressou em um dos maiores parques tecnológicos do país, o Porto Digital, no Recife (PE), onde assumiu o cargo de analista na área e aprofundou seus conhecimentos ao participar de projetos internacionais, como o Incobra.
O Incobra é um consórcio formado por instituições brasileiras e europeias, que tem como proposta identificar gargalos e propor soluções que facilitem a cooperação entre os atores do sistema de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) do Brasil e do Velho Mundo.
“Esse programa me ensinou muito sobre cooperação internacional. Os mais relevantes escritórios de projetos de inovação do mundo estavam envolvidos, e minha função era articular os ecossistemas brasileiros para receber os participantes do programa e conectá-los com pesquisadores de diversos estados. A gente contactava os parques tecnológicos para mostrar que eles poderiam trabalhar em cooperação, recebendo financiamento de fundos europeus”, detalha Daniela.

Ante o mercado que continua a expandir exponencialmente, a consultora investiu em uma especialização em negócios e empreendedorismo em mercados emergentes pela Harvard Business School. Hoje, também responde pela criação do plano estratégico de inovação e internacionalização do Estado do Rio Grande do Norte, além de auxiliar a Câmara de Comércio Brasil-Portugal a descobrir projetos inovadores criados por startups e intermediar a apresentação de suas plataformas a entes públicos e privados.
Mas outro levantamento, também da Brasscom, não mostra um cenário tão próspero para as mulheres no setor de TIC. De acordo com a entidade, apenas 36,9% dos profissionais empregados no segmento no país, em 2021, eram do sexo feminino – o que dá cerca de 320 mil mulheres, com salários e posições menos estratégicas nas organizações do que seus colegas homens.
“É preciso acabar com este estigma de que é indispensável ter conhecimento técnico em ciências da computação para se dedicar ao mercado de TIC. Há inúmeros espaços para serem ocupados neste universo de trabalho, e as mulheres também têm espaço nele”, reforça Daniela Freire.
Entre os conselhos que daria para quem não sabe por onde começar para abraçar uma nova carreira ou adaptar seus conhecimentos a este mercado onde não faltam empregos, ela cita, por exemplo, o curso de gestão ágil, conjunto de técnicas e práticas que tornam mais rápido e eficiente o processo de entrega de projetos. A boa notícia é que é possível procurar este tipo de capacitação pela internet mesmo, em plataformas estrangeiras como a edX.org.
“No setor de tecnologia se trabalha muito em equipe. Mas para fazer com que essa engrenagem funcione, as empresas precisam de gestores ágeis. Existe uma série de metodologias para isso, para estimular que as pessoas trabalhem em grupo, saibam gerenciar, organizar e focar nos resultados”, exemplifica. “O mercado de tech não prioriza diploma, e sim a capacidade de realização de um profissional. As empresas buscam soluções”, acrescenta.