Reunindo empresas e pessoas mais inovadoras do ecossistema de pagamentos e produtos financeiros, a Money20/20 Europe é uma vitrine para alguns dos nomes mais conhecidos e de mais rápido crescimento do setor. Com mais de 6.500 pessoas de mais de 2.000 empresas presentes, o evento que aconteceu em junho em Amsterdam foi muito intenso em termos de possibilidades de networking e novos insights, consolidando a volta dos eventos presenciais como conhecíamos, com direito também a coquetéis e festas noturnas para a interação dos presentes.
A indústria de pagamentos se mostrou mais madura com os players já conhecidos muito desenvolvidos em termos de tecnologia e produtos, como Worldline, Tink powered by Visa, Thunes, JP Morgan, entre outros, como também muitas novas marcas apareceram com stands suntuosos e trazendo inovação em sua abordagem de comunicação. O segmento é extremamente dinâmico e a cada ano os temas centrais mudam nas rodas de discussões e painéis.
Crypto wallets e pagamentos com criptomoedas
As criptomoedas foram a temática central do evento em diversos painéis e rodadas de negócios, e que gerou muita curiosidade entre os presentes, dada a sua crescente procura e inserção em diversos portifólios, apesar de sua volatilidade e descentralização financeira. Os bancos estiveram no controle do sistema monetário por um longo tempo, e agora também se mostram muito atentos no tema da custódia de criptoativos, podendo oferecê-los por meio de super apps, com intenção de atrair a geração Z. Porém, é um tema que gerou muito controvérsia entre os palestrantes, alguns mostrando mais otimismo e outros colocando claramente os riscos do sistema.
Peter Smith, CEO e cofundador da plataforma de ativos digitais Blockchain.com ponderou sobre as perspectivas globais para a indústria de criptomoedas. Em sua opinião, aceitar o Bitcoin como moeda legal dos países não prejudica a estabilidade financeira nacional. Smith acredita que o valor da indústria de criptomoedas está na tecnologia subjacente e questiona motivos de possíveis resistências por parte dos reguladores.
A questão da segurança está sempre em destaque quando falamos de criptomoedas. Alguns destacaram os perigos dos pagamentos de criptomoedas e seu crescente uso em fraudes. Foi dado um exemplo em fraudes em pagamentos instantâneos em países da Europa, onde os recursos são destinados pelos fraudadores a carteiras de crypto, já que são descentralizadas. Foi enfatizado que, atualmente, a principal preocupação com a criptomoeda é a segurança dos clientes e é necessário investimento nisso.
Helen Hai, Head de NFT e Fan Token da Binance, continuou os debates sobre criptomoedas. Apesar de todas as dificuldades e críticas atuais, ela acredita que o objetivo final da tecnologia blockchain é a transferência gratuita de valores. É isso que garante sua posição no mundo financeiro do futuro.
Muitos afirmam que é preciso colaboração entre reguladores e inovadores, players do mercado privado, é o caminho para chegar a um ponto em que o espaço possa ser seguro e protegido. Além disso, a educação é importante porque é uma indústria com muitos conceitos novos.
Metaverso
Esse foi um tema que circulou bastante entre os painéis, com comparações com o universo de gaming já existente, além de especulações acerca da experiência do usuário principalmente, uma identidade pessoal, métodos de pagamentos, comunicação e gerenciamento de riscos. Ficou o questionamento de quem irá governar este universo paralelo e se o blockchain será uma ferramenta para criação de uma economia descentralizada.
Muitos se mostraram preocupados com o universo do metaverso em termos de acessibilidade, já que a entrada ao ambiente se dá pelo óculos de realidade virtual que tem custo expressivo, ou seja, irá se restringir em primeiro momento a uma camada menor da população. Hoje, o tema da democratização dos serviços financeiros é muito importante nas novas implementações nos ambientes do Open Banking, pagamentos instantâneos, na bancarização de pessoas por meio de fintechs, entre outros, se alinhando às prioridades conferidas pelo G20 para a melhora dos pagamentos internacionais no que se refere a custos, tempo, transparência e acesso.
Mas nem só preocupações foram colocadas sobre este tópico, mas sim as oportunidades para pagamentos cross-border, já que em um universo etéreo será fluido acessar outros lugares e cruzar fronteiras de comércios locais. Imagina-se que todos os produtos do metaverso serão vendidos em formatos de NFTs (non-fungible token), que são ativos criados a partir da tecnologia blockchain que serve como identidade digital de um item. Assim, poderão transformar a experiência de compra em “Phigital”, ou seja, uma junção entre o universo físico e o digital. Além disso, podem se beneficiar do modelo do metaverso, setor de educação, ferramentas de encontros (date apps), redes sociais, gaming e entretenimento.
Open Banking
O Open Banking já é um tópico relevante no evento há alguns anos, mas há sempre possibilidades de inovação e melhor convergência entre tecnologias e dados.
John Collison, cofundador e presidente da gigante de pagamentos Stripe, discutiu sobre oportunidades que o Open Banking oferece tanto para os negócios, mas principalmente para a experiência do cliente. Ele também revelou no momento a tecnologia de autenticação desenvolvida em parceria com a Wise que torna a autorização sem atritos para o consumidor, mostrando os benefícios do conceito do Open Banking e das conexões nas camadas internas dos produtos para o cliente final.
O consumidor atual espera uma experiência altamente personalizada e imediatista esperando cada vez mais respostas em tempo real para quaisquer interações. Inteligência artificial, dados e outros tipos de tecnologia podem ajudar nesse quesito, mas a camada do pagamento não deve ser esquecida ou ser acessória na construção da jornada do cliente.
Daniel Marovitz da Booking.com citou que o processo de pagamento é parte do produto/serviço vendido, já que ele costuma gerar sentimentos durante a jornada do cliente.
Um anúncio de milhões sobre Buy Now Pay Later (BNPL)
Outro grande destaque no evento foi sobre o anúncio da Apple na véspera da conferência de que estava entrando no mercado BNPL ainda este ano com o lançamento do Apple Pay Later, como parte da nova funcionalidade do iOS 16. Os usuários do Apple Pay nos EUA poderão dividir qualquer compra em quatro parcelas, pagas ao longo de seis semanas, sem juros e sem taxas de qualquer tipo.
O Buy Now Pay Later (compre agora, pague depois) possibilita que o consumidor possa pagar pelas suas compras em parcelas cobradas ao longo de um período, em um modelo similar ao de um financiamento. Ou seja, o cliente não precisa ter o valor total do produto que deseja no ato da compra para concluir a transação. Este método de pagamento já é forte em e-commerces internacionais e no Brasil se encontra em ascensão.
Palco Sex & Drugs & Rock and Roll traz temas descontraídos
O evento contava com um palco muito interessante chamado Sex & Drugs & Rock and Roll que trazia um ambiente totalmente descontraído em termos visuais, se espelhando no nome, como também nos conteúdos trazidos com tópicos sobre conteúdos adultos, cannabis, além de trazer a discussão do lado obscuro das cryptos, a dominância de bancos, entre outros, sendo necessários serem trazidos à discussão e reflexão.
Um dos painéis mostrava que as indústrias do sexo e cannabis somam mais de USD 54 milhões em valor de mercado, mostrando o alto potencial desse mercado, porém é ressaltado os desafios e burocracias enfrentadas na operação desses negócios.
O não reconhecimento de alguns negócios mais alternativos pelos sistemas financeiros nacionais e instituições tradicionais também foi mencionado por Lee Taylor, Diretor Financeiro da plataforma de mídia social baseada em assinatura OnlyFans. Ele falou sobre a necessidade de reconhecimento dos criadores de conteúdo pela comunidade financeira, que normalmente categoriza este tipo de negócio como de alto risco. Ele discutiu o dilema moral de ganhar a vida com conteúdo legal explícito, riscos de reputação de negócios semelhantes ao OnlyFans, bem como detalhes técnicos, como procedimentos KYC necessários para essas plataformas de dados confidenciais.
O palco e a entrada dos tópicos são movimentos muito interessantes que a organização do evento faz para tirar toda a formalidade conhecida no mercado financeiro, e fazer do evento um ambiente mais descontraído, acolhedor e diverso.
Vimos durante esses três dias mais de 350 palestrantes trazendo discussões ricas, oportunidades e tendências para este dinâmico mercado, sendo insights que provavelmente moldarão o futuro da indústria nos próximos anos, na Europa e além. Em poucos meses as discussões serão na Money 20/20 de Las Vegas, e acompanharemos os rumos e avanços desta indústria.



