“Oh! Que saudades que tenho da aurora da minha vida”. Ainda Guri, lá no sertão de Minas, declamei em sala de aula este começo de Meus Oito Anos, de Casimiro de Abreu (1839-1860). O curioso é que, ao ler o famoso poema, a minha mente já especulava sobre quais experiências daquela época se converteriam na idade adulta em reminiscências doces. Décadas depois, me pego saudoso de tarefas analógicas “que os anos não trazem mais”.
Rebobinar manualmente o filme de 36 poses da câmera fotográfica, discar o número do telefone da vovó, pousar suavemente a agulha no LP que roda na vitrola e preencher cheque na máquina de escrever. Essas são algumas das atividades cotidianas que foram para estantes de brechós, antiquários, museus e sites de leilão virtual. Mas há as que ressuscitam produtos para saciar saudades do público, como brinquedos, guloseimas e papel de carta.
Anoto no bloquinho de arame outras lembranças “retrô” que nos conectam a passados sempre presentes. A impulso para resgatar acervos afetivos num mundo de crescente informática é a de querer fixar fronteiras temporais que separem itens concretos e amigáveis do alvorecer de profundas e prolongadas imersões online. A rotina de narcisismo, de confidências tecladas no celular e de formulários auto-preenchidos seduz e assombra.
Não. Não dá para pular de fase no jogo da vida e muito menos ficar preso à nostalgia do que não existe mais. Só é possível fazer simulacros e isso as mídias digitais até ajudam. O smartphone que nos induz a ler e-mails à beira da piscina e sentado no vaso sanitário gera ansiedades que não se via quando girávamos o seletor de canais da tevê ou endereçávamos o cartão postal para a namorada. Atos analógicos são plenos em prazer tátil, em temperança e em presença.
O desafio então é harmonizar a velocidade das ferramentas atuais com o desfrute de coisas simples e memoráveis. Sem tecnologia, nos isolamos uns dos outros. Contudo, ainda é bom curtir fotografias feitas de química e luz, de ler livros póstumos feitos de cartas trocadas e de rodar a manivela de um ralador de queijo sobre o prato de espaguete. Eis aí a lógica analógica que até mesmo a geração Z sabe aproveitar e pode até mesmo gostar e perpetuar.




