Seu Lunga presidente

Assim como o Juquinha (das piadas infames), ou o Joaquim Texeira (no Twitter), Seu Lunga não precisa sequer existir para seguir existindo e produzindo novas falas

-Seu Lunga, quer que eu ponha a sopa num prato pra você?
-Não. Derruba no chão e empurra com o rodo.

-Seu Lunga, esse seu carro ronca muito?
-Não sei. Ele dorme na garagem.

-Seu Lunga, o Sr. vai sair nessa chuva?
Seu Lunga fecha o guarda-chuva e diz:
-Não, vou esperar a próxima.

No armazém:
-Tem veneno de rato?
-Tenho, Seu Lunga. O Sr. vai querer levar?
-Não. Vou trazer os ratos pra comerem aqui.

Alçado a mito, com estátua erguida no Ceará, Seu Lunga é um monumento à ironia que fulmina o interpelador. Persona que se multiplicou pelos cordéis e discurso popular, muitos dos ditos que lhe atribuem não são seus. O excesso, a vastidão apócrifa de suas falas, é fruto de uma máscula ignorância, que por meio do humor viralizou pelo Nordeste antes mesmo do advento das redes sociais. Assim como o Juquinha (das piadas infames), ou o Joaquim Teixeira (no Twitter), Seu Lunga não precisa sequer existir para seguir existindo e produzindo novas falas. Essas caricaturas do politicamente incorreto, querendo ou não, têm porte heróico, e vociferam um real inconveniente: estamos aquém dos preceitos ESG que o mundo exige.

No caso do Seu Lunga, falta-lhe empatia e paciência, sobra grosseria. As questões que lhes são levantadas são rebatidas com uma resposta que desarticula o diálogo e mina a relação cooperativa que poderia dele advir (caso o humor não redima).

O curioso é que, nos dias de hoje, ao invés dessa persona dos nossos rincões rumar ao ocaso, a multiplicidade de tempos que se comprimem na contemporaneidade põe ela em ascensão.

A globalização, a diversidade, vanguardimos culturais e disputas por reconhecimento e notoriedade se contrapõem a uma onda reacionária que estava às margens das TVs e que ecoava apenas nas pentecostais. A periferia foi ao centro; tiozinhas e tiazinhas também se põe a trolar.

A hegemonia das redes democratiza o espaço comunicacional com violência anárquica, ao ponto do anão Ranzinza cobrar protagonismo na história nacional.

Chegamos ao ponto crítico onde temos que reestabelecer os limites entre liberdade de expressão, calunia, difamação e discurso de ódio. Enquanto isso não acontece, algozes e vítimas trocam lados. A própria busca pela verdade foi levada a fadiga em meio ao reordenamento das matrizes informacionais: há conteúdos disponíveis para se acreditar em qualquer coisa ou não se acreditar em nada.

A reprogramação da malha social por meio das redes foi inflamada pelos escândalos de corrupção (mensalão e petrolão) e quando a crise econômica chegou em 2015 o caldo já era grosso o suficiente para derrubar o governo petista e sua imagem santa de defensor dos pobres. Vale destacar que a quebra dessa confiança, a queda da autoridade, saiu do noticiário para o factual dos viventes apenas quando a barragem econômica dos subsídios e pedaladas rompeu e a onda de desemprego varreu todo o país.

Ao meu ver foi o violento movimento pendular criado pela combinação dessas forças que levou uma versão do Seu Lunga à Presidência da República em 2018. Diferente do voto perdido que elege Tirírica, o sufrágio bolsonarista fez subir o tom, e a atitude rancorosa e impaciente foi ao trono. Não há riso, nem alegria; o gozo ressentido reforça o desprezo e faz cócegas na insensibilidade.

Por fim, iludem-se os que acreditam que propostas elegem candidatos. A escolha acontece no campo dos afetos, por meio da identificação. O candidato que encarnar o geist leva o pleito. O maior erro do eleitor é seguir acreditando que “o homem roubado nunca se engana”, e que em outubro vale se alistar no bloco do “vão ter que me engolir”. A atual polarização apenas reforça o mal assombro que paira nas urnas e o esgotamento do horizonte político, onde a esquerda populista fez nascer uma direita ainda mais tosca.

Se a insatisfação é costumeiramente a voz da mudança, no recalcamento atual ela faz também o discurso da situação. Se o brasileiro era um povo cordial, alegre e caloroso, hoje o ressentimento traça rugas profundas nos dois lados da face de um povo amargurado e sem paciência para a política.

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