Por Sérgio Bivar

Foi ainda em 2025, poucas semanas antes do anúncio do Nobel de Literatura, que meu professor da pós-graudação, o filósofo Peter Pál Pelbart (húngaro-brasileiro), referiu-se a László Krasznahorkai como o maior escritor vivo. Somente nestas férias, porém, pude me dedicar a esse que é único romance do autor traduzido para o português: Sátántangó (1985).

Confesso que demorei um pouco para me situar na obra. Somente depois de umas vinte páginas algo começou a acontecer: o imaginário foi se instalando. Não exatamente uma trama, no sentido convencional, mas uma atmosfera onde o leitor é tragado por uma espécie de pântano verbal, uma lama mental onde tudo parece imóvel e, ao mesmo tempo, em decomposição.

Em um assentamento enlameado e decadente, Kráner e Schmidt retornam da cidade com o dinheiro da venda de um gado. Planejam fugir. Futaki, que mantém uma relação extraconjugal com a senhora Schmidt, descobre o plano por acaso e exige o seu quinhão, não por moralidade, mas porque também quer sair daquele fim de mundo. A partir daí, o romance vai apresentando pouco mais de uma dezena de personagens que, pelas janelas, vigiam a vida uns dos outros e subsistem naquela comunidade abandonada, entre a miséria, o álcool, a suspeita e uma espera sem objeto definido.

Paira sobre todos uma espécie de promessa de ressurreição: o retorno, após seis anos de ausência, de Irimiás e Petrina. A dupla faz lembrar, ainda que em chave mais miserável, os arrepiantes Woland e Koróviev (Fagote), de O Mestre e a Margarida, de Bulgakov.

Irimiás, nosso profeta Jeremias, que na Bíblia vem anunciar e lamentar o cativeiro babilônico, aparece aqui como um falso redentor, um profeta ambíguo, talvez policial, talvez golpista, talvez apenas mais um homem capaz de transformar a desesperança alheia em instrumento de poder. Petrina, seu escudeiro, seria uma versão burocrática de Koróviev: menos carnavalesco, mas igualmente cúmplice da encenação.

Em torno de um suicídio juvenil e em meio a uma taverna, enquanto todos aguardam a chegada de Irimiás, poderíamos dizer que chegaríamos ao anti-clímax da trama caso Satantango obedecesse à lógica narrativa tradicional. Mas o romance é estruturado como um tango em doze capítulos: seis passos para frente, seis passos para trás. A narrativa avança e retorna, desloca-se e se repete, criando a sensação de que os personagens não caminham em direção a um destino, mas giram e afundam.

O mais inquietante em Krasznahorkai é justamente essa fusão entre forma e mundo. As frases longas, sinuosas, quase hipnóticas, não são mero recursos estilístico. Elas reproduzem a própria condição dos personagens: seres presos em pensamentos circulares, em rumores, em pequenas paranoias, em expectativas messiânicas que jamais se cumprem. O livro parece escrito contra a ideia de saída. Tudo nele é espera, deterioração e repetição.

Há algo de bíblico, kafkiano e grotesco em Satantango. Bíblico porque Irimiás retorna como uma figura de salvação e esperança; kafkiano porque o poder nunca se revela por inteiro, mas está sempre presente como ameaça (administrativa, policial ou metafísica); grotesco porque a miséria humana aparece sem transcendência, sem consolo e sem beleza redentora.

Krasznahorkai não oferece ao leitor uma alegoria simples do comunismo tardio ou da ruína pós-histórica. O que ele constrói é mais perturbador: uma comunidade que deseja ser enganada porque já não suporta a própria existência.

Nesse ponto, Satantango é menos um romance sobre a decadência de um lugar do que sobre a necessidade humana de acreditar em qualquer coisa. Irimiás só tem poder porque os outros precisam ser enganados. Sua palavra reorganiza o caos não porque traga verdade, mas porque oferece direção a vidas que já se encontram desfeitas. A fé, aqui, não nasce da esperança, mas do esgotamento desses que vivem num falido assentamento rodeado por castelos abandonados.

Ao final, fica a impressão de que Krasznahorkai escreveu uma espécie de anti-epopeia da espera. Nada se resolve, porque talvez nada pudesse se resolver. O tango continua, circular, demoníaco, melancólico. E o leitor, depois de atravessar a lama, entende que a grandeza do livro está justamente em não permitir uma saída limpa. Sátántangó é um romance sobre a promessa de redenção em um mundo onde a redenção se tornou mais uma forma de aprisionamento, e onde nem o narrador está à salvo.

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