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Sergio Bivar: O futuro de uma ilusão

Será que perdemos a capacidade de acreditar num Brasil que dê certo? Será que perdemos a capacidade de nos unir por um novo país?

Será que perdemos a capacidade de acreditar num Brasil que dê certo? Será que perdemos a capacidade de nos unir por um novo país?

Por Sérgio Bivar

Evidência empírica da miséria política é ter a frente duas faces do passado. Uma que nos envolveu numa louca paixão social e outra que nos seduziu na falsa moral. Dá senso a distopia escolher entre Lula e Bolsonaro enquanto caminhamos por ruas onde pessoas dormem.

Além da falência econômica, além da pandemia, o que chama atenção é a falência civilizatória. Jaz o país do futuro, nesse dejà vu da década perdida, quando mais uma vez nos teletransportamos do milagre econômico para a miséria crônica.

Como diria Claude Levi Strauss: o Brasil parece ter encontrado a decadência antes de alcançar a civilização.

Em 1988, foi legado da Constituinte deixar para trás os extremos da ditadura. Pelas mãos de Dilma e Bolsonaro o passado voltou como tragédia e viramos personagens no pesadelo de quem não quer acordar.

Desde a ordens dos maniqueus nos perpetuamos em irreconciliáveis opostos.

Essa dicotomia, visão rasteira da realidade e carente de síntese, se propaga em meias verdades, em frases fora de contexto, num debate raso, no cativo das hordas e no estéril altar da superficialidade.

A descrença se instaura com a impossibilidade de uma justiça perene. O processualismo tripudia do mérito e nada parece se sedimentar onde até o passado é incerto. As instituições se dobram como colheres nas mãos de mágicos. Entre excessos e condescendência a grande mídia também tem seu quinhão. Tudo é manipulável.

Na década de oitenta, a dívida externa dolarizada crescia junto com os investimentos e os sonhos de uma país que tudo tinha para dar certo. O gatilho da crise, a reversão das expectativas, se deu com a primeira crise do petróleo que mexeu com o câmbio, balança comercial, inflação e custos de produção. O país simplesmente se inviabilizou.

Hoje, alguns dos nossos fundamentos econômicos não são tão ruins. Estamos protegidos com alguns contrapesos: nosso saldo de reserva em dólares é positivo, e as transações correntes (também positivas) sugerem uma expectativa de melhora no câmbio. Isso, claro, num cenário em que a confiança seja reestabelecida.

O problema, contudo, é própria descrença do investidor e da população na capacidade do Brasil reencontrar seu sonhado caminho. Visto que as soluções que precisamos são de longo prazo e envolvem segurança jurídica, educação, infraestrutura e valores sociais e ambientais básicos. Nada que caiba num simples slide de PowerPoint.

Nesse sentido, as próximas eleições serão prova de fogo da nossa maturidade institucional.

Como atravessar a melancolia política? Será que perdemos a capacidade de acreditar num Brasil que dê certo? Será que perdemos a capacidade de nos unir por um novo país?

É notório que um povo em luto não vai às ruas. E como disse Freud no texto que dá nome ao artigo, e apenas tangencia a política por tratar do nosso sistema de crenças: “o que é característico das ilusões é que elas são derivadas de desejos humanos”. Livres do desejo, ilusões são apenas erros que podem ser contornados.

Enquanto, pelos extremos, fanáticos buscam se engolir, um centro apático já não se ilude, ou pior: descrê da ingenuidade de seus concidadãos.

Quem sabe será melhor encarar 2022 assim: sem soluções simples para problemas complexos, sem justiceiros para impor a justiça, sem salvadores da pátria. Quiçá essa desesperança nos livre da compulsiva roda que tritura o futuro.

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