Fundos de previdência: um oceano azul de oportunidades para bons resultados

O argumento de venda para os planos de previdência se concentra muito na apropriação de benefícios de redução do imposto de renda e na ideia de reserva de longo prazo

Por Luiz Fernando Araújo, CEO da Finacap Investimentos

O surgimento das plataformas de investimento provocou uma verdadeira revolução no sistema financeiro nacional. Até 10 anos atrás, a distribuição de investimentos financeiros era quase exclusiva dos cinco principais bancos. Hoje, as duas maiores plataformas digitais, XP e BTG Digital, operam volumes próximos ao das grandes instituições financeiras.

Uma das razões que explica esse forte crescimento é a percepção de maior valor agregado na oferta das plataformas, que investiram fortemente em tecnologia e na estruturação de uma rede de assessores focada em disponibilizar uma gama de investimentos. Antes, a oferta dos bancos era restrita e, frequentemente, inadequada às necessidades de cada investidor. Não é exagero dizer, portanto, que qualquer pessoa consiga, atualmente, montar uma carteira bem diversificada com exposição nas várias classes de ativos, localmente e no exterior.

No entanto, a previdência privada, que representa um dos principais veículos para acumulação de patrimônio, ainda não se beneficiou completamente deste processo de abertura e inovação. Representando um mercado com volume estimado em R$ 1 trilhão, a previdência privada tem cerca de 87% desse total concentrado nos cinco principais bancos, que entregam resultado abaixo do CDI, na média. A exposição de 71% das previdências em renda fixa sugere que há pouca personalização das carteiras individuais com uma oferta pelas agências desvinculada ao perfil ideal de cada investidor.

O argumento de venda para os planos de previdência se concentra muito na apropriação de benefícios de redução do imposto de renda e na ideia de reserva de longo prazo. Sim, são verdades. Entretanto, esses recortes não entregam todo o potencial do ativo.

A utilização de planos de previdência por grandes investidores norte-americanos é exemplo de como esses veículos podem potencializar o retorno líquido das estratégias de investimento pessoal. Reportagem investigativa do Washington Post, que causou grande repercussão nos EUA, descobriu saldos bilionários em planos de previdência conhecidos como Roth IRA.

Entre os casos apresentados na reportagem, o que mais chama a atenção é o de Ted Weschler. Para a comunidade de value investors, ele passou a ser um nome familiar desde que foi recrutado por Warren Buffett para gerir parte da carteira de investimentos da Berkshire Hathaway ao lado de Todd Combs. A ideia, admitida pelo próprio Buffett, é de preparar estes dois gestores para sucedê-lo na gestão da carteira de ações da Berkshire avaliada em mais de US$ 220 bilhões.

Como todo value investor que se preze, Weschler é extremamente discreto e pouco se sabia sobre ele, além de ter vencido, por dois anos seguidos, o leilão beneficente para jantar com Buffett. O que se descobriu é que ele iniciou seu plano de previdência em seu primeiro emprego como analista financeiro, em 1983, logo após concluir sua graduação. Essa conta tinha coparticipação do empregador dele, na época. Nos EUA, a modalidade é conhecida como 401(k): estruturas utilizadas para previdência dos funcionários que tem a contraparte da empresa empregadora, algo similar às entidades de previdência complementar no Brasil. Quando ele se desligou da companhia para iniciar um hedge fund, em 1989, possuía US$ 70.384.

Com o saldo inicial, ele migrou para uma conta IRA padrão, atraído pela possibilidade de diferir o pagamento de IR para o futuro. Mesmo sofrendo perdas significativas no início dos anos 1990 (em duas posições perdeu 67% e 55% respectivamente), nas décadas que se seguiram administrou ativamente sua carteira de investimento, aplicando em ações conforme o evangelho do value investing e multiplicou seu patrimônio várias vezes. Em 2018, trinta anos depois, seu plano de previdência chegou a US$ 264,4 milhões, um exorbitante retorno de mais de 300.000%, com uma média de 32% de crescimento anual.

Toda essa história reforça o cenário atual no Brasil: com a abertura das plataformas, os investidores passaram a ter acesso a produtos antes restrito a famílias de alta renda. Esta abertura, em uma primeira onda, vale dizer, se concentrou nos fundos de investimento, ativos financeiros e bolsa de valores. Mas o mercado de previdência segue pouco visto. Os fundos de previdência ainda engatinham nessa escalada, mesmo sendo um dos produtos mais vantajosos para o investidor: benefícios tributários e sucessórios presentes e acúmulo de capital com bons rendimentos no longo prazo.

Dito isto, a formatação dos planos de previdência deve, cada vez mais, integrar o repertório de assets e seguradoras, porque é como um oceano azul de oportunidades para bons resultados. E, assim, estar mais evidente para o grande público. Como ensina Ted Weschler, alocar em produtos de gestores especializados nas mais diversas estratégias, filosofia de investimento consistente, eficiência fiscal e horizonte de investimento de longo prazo sempre será a melhor ferramenta dos investidores, sobretudo dos bens sucedidos.

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