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As praias de Marte ao alcance da mão

Leia o texto em qualquer ordem, a qualquer tempo. Cada um com muitas verdades: científicas ou dogmáticas, artísticas, poéticas-existenciais ou não

Num centelho de lucidez, depois de percorrer caminhos difíceis e sofrer pressão dos editores, resolvi dividir esse artigo em 3 partes independentes e indivisíveis, porém interconectadas. Como aqui no Crania estamos lidando com um público altamente qualificado, muitas vezes executivos e executivas que mal tem tempo para seus próprios checkups de saúde mental, dividi esse artigo em 3 bullet points. Leia em qualquer ordem, a qualquer tempo. Cada um com muitas verdades: científicas ou dogmáticas, artísticas, poéticas-existenciais ou não.

Os fulminantes bullets podem ser úteis no small talk antes de uma reunião de board, numa conversa de piano-bar ou mesmo numa cabine executiva rumo à Ilha de Páscoa. Versáteis, versam sobre questões fundamentais e sobre o fundamento em si. Dos mistérios do universo ás órbitas cerebrais: qual segredo um neurônio contou pro outro?

1. Ode à Loucura

É a vida né, a vida a gente tem que aceitar como a vida é, não como a gente quer, né. Se fosse como eu queria, eu num queria ver ninguém no mundo num queria ver ninguém na casa,

queria tá toda hora comendo, bebendo e fumando, assim é que eu queria que fosse o meu gosto.

Mas como eu pulei muro, despulei muro. Pulei portão, despulei portão.

Pulei lá de cima pro lado de fora, do lado de fora pro lado de dentro. Quer dizer que eu… Num é como eu gosto.

Eu num esperava pular muro, pular portão. Pular janela, despular janela.[1]

(Stella do Patrocínio)

A mecânica da mente humana até hoje nunca foi totalmente desvendada. A neurociência caminha de muletas por entre médicos, cientistas, fisioterapeutas, empresários, psicólogos e psiquiatras em plenas capacidades mentais. Gente capacitadíssima. Capaz até de cometer crimes horrendos.

Perante o diferente, a ciência oferece a tentativa de conformidade. Biológica e social. A medicina elimina a dor. Mas onde dói? E cavalares doses de morfina são administradas todos os dias: quanto disso é loucura? Quanto é sanidade?

Stella do Patrocínio, poeta, mulher negra, carioca, de baixa renda, viveu no Rio no meio do século XX. Por não se comportar adequadamente, foi recolhida a manicômios. Por onde ficou por mais de 30 anos. E onde morreu. Num golpe de sorte, graças à uma artista em particular e à luta antimanicomial de forma mais ampla, teve seus falatórios revelados. Sua suposta loucura revela uma poética mais potente e real que qualquer relato acadêmico da época. Entre sessões institucionais de eletrochoque e outras torturas da conformação social, Stella nos deixou reflexões sobre a humanidade:

Eu num queria me formar, num queria nascer, num queria tomar forma humana carne humana e matéria humana.

Num queria saber de viver num queria saber da vida, e num tive querer nem vontade pra essas coisa, e até hoje eu num tenho querer nem vontade pra essas coisa.

Que se eu MORRO, eles me ressuscitam, eles me ressuscitam, eles passam muito tempo sem eu, de repente eles me formam novamente, porque ficam sentindo falta de saber onde é que eu estou e pra onde é que eu fui

(Stella do Patrocínio)

Ressuscitado e em retrospectiva, o pensamento de uma poeta negra em estado puro. A História das “Putas e Loucas” foi sempre silenciada[2]. Louvemos Nellie Bly, Augusta Cursino, Fernanda Young e Stella do Patrocinio. Quando a rebeldia e a arte são transformadas em distorções sociais quem está deformada é a sociedade.

De 1950 diretamente para Terra 2022; em ebulição, confinada e marginalizada. O sistema precisa de inimigos. Mas o futuro chega galopando. Mal tivemos tempo para refletir sobre o racismo institucional a que Stella do Patrocinio foi submetida e Elon Musk já nos implantou mais um chip no cérebro. Seus satélites e starships agora orbitam também nossa massa crítica e cinzenta.

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu era ar, espaço vazio, tempo
E gases puro, assim, ó, espaço vazio, ó
Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Fazer céu da boca, fazer falatório
Fazer músculo, fazer dente

Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Fazer cabeça, pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio
Não tinha onde tirar nada disso
Eu era espaço vazio puro

(Stella do Patrocínio)

2. Neuralinks

Sinapses e descargas elétricas estimuladas no córtex de uns podem causar convulsões generalizadas numa bio-sociedade de cérebros de outros. O curto-circuito pode acabar queimando toda a Amazônia! Mas nossos pensamentos, sólidos como uma âncora, flutuam na atmosfera. Junto da fuligem, camuflados pela confusa névoa seca alaranjada do pôr-do-sol, acima da densa folhagem, descansam. Exatamente ali perdem seus delimitados contornos e transformam-se em sonhos. Assim já podem ser capturados, como borboletas, por redes sociais em outros planetas ou por sinais de satélite público-privados.

Nunca passam desapercebidos pelas galáxias. Além de escandalosos, nossos sonhos têm cheiro. O odor já empesteou a Via Lactea. No coletivo, não cheiramos como um perfume de Calvin Klein, nem muito menos como a literatura de Galeano. Os buracos negros não podem ser nosso quintal. Nos engolem.

Isso tudo para dizer que o universo talvez nem seja infinito. Afinal, o que é ser infinito? O mercado internacional é infinito, por exemplo? E o Kapital? Cessa de conquistar e se multiplicar um dia?  “tudo que é sólido desmancha no ar”, disse Marx. Principalmente se for pensamento ou sonho. Depois de ter nos levado até a beira do Espaço Sideral, controlar nossos cérebros parece mais fácil que despertar o desejo de uma criança por um donuts cor-de-rosa. Espécie multiplanetária? Como sapiens, somos mesmo uma espécie? Ou quando deixamos de ser?

Os jovens do Vale do Silício perceberam que se tomarem microdoses matinais de cogumelo alucinógeno produzem mais. E melhor. Além dos chips cerebrais, cientistas-empresários estariam desenvolvendo micro-fios de bio-substância capazes de conectar ou reconectar neurônios. Novos networkings de sinapses! A bioconformidade, alucinada, diante dos nossos olhos.

Loucura, realidade, amor e prazer são conceitos sempre confusos para definir. Um algoritmo teria dificuldades. A verdade tem contornos de mentira. Pra quem não sabe, Elon Musk é deficiente mental[3]. MK-Ultra, programa ultra-secreto que visava controlar mentes humanas[4], foi só o início. E nós já estamos no final.

3. Starlinks – Sinais trocados

O atum enlatado foi desenvolvido para alimentar tropas militares. Hoje, alimenta presidiários e confinados pela covid-19 ao redor do mundo. Até mesmo os cosmonautas russos comem atum enlatado na Estação Espacial.  Os aviões, os radares, a própria internet. Tudo inventado para guerrearmos e para o bem da humanidade ao mesmo tempo. A ambiguidade, não é incrível? Temos também as bombas nucleares, derivadas de uma equação forjada na cabeça de Einsten.

Enfim, grandes invenções. Mas e a evolução humana? Evoluiu para frente, certo? Tudo muito confuso. “palavras jogadas ao vento, em clima de tempestade”. Mas tudo tem lógica, eventualmente. Eu e Stella do Patrocínio garantimos.

A terceira margem do rio é logo ali. As praias de Marte também. Estão bem aqui, na verdade. Já podemos tocá-las com os olhos e as pontas dos dedos. A deterioração generalizada da saúde mental dos terráqueos está sacramentada. Temos, em proporção, mais loucos e humanos em não-conformidade do que em qualquer outro tempo na História. Um grande burnout coletivo. Uma enorme intoxicação por e-cigarretes. Deveremos convocar um grande recall, doutor? Ou acionar nossas starships reutilizáveis?

E novas drogas contra depressão humana estão sendo aprovadas com psicoativos. Já era hora! Unicórnios serão criados. Quem se esbaldou nas raves trance na virada dos séculos sabe que é uma fórmula de sucesso. Psicoativos, barbitúricos e neuro-estimuladores nada mais são do que necessidades sociais. Tão necessários quanto a Democracia e a Liberdade. Junto com as já estabelecidas corporations da cannabis, darão até superpoderes e grandes yields aos nossos millenials, meio debilitados por uma avassaladora apatia. Um grande brinde a loucura que lucra! Vivaaaaa!

– Viu só, darling? Legalizou na América e saímos todos no lucro.

Mas nossos psico-ativos não foram feitos para conformar. E sim para catalisar, multiplicar, transgredir, transpassar. A História não perdoará os caretas. Aceitemos essa nossa condição humanitária que, seja qual for, é gravíssima. De tão grave, é irreversível. “A beleza salvará o mundo”. Sò se for junto com o Rivotril encanado nas grandes cidades!

Relaxa, aproveita. O tempo é hoje. Antes já do que nunca. Mas não demore, o futuro é daqui a um minuto, é tempo de ser feliz.

Ilustração principal: Chen Wen Wang


[1] Falatório de Stella do Patrocinio, gravado pela artista Carla Guagliardi

[2] Reflexões a partir do episódio de #49 do podcast 451 Mhz

[3] Além de ter uma síndrome, ele disse: “(…) só quero dizer que reinventei os carros elétricos e estou mandando pessoas para Marte em um foguete.  Você achou mesmo que eu fosse um cara normal?”

[4] Sobre esse programa CIA, vejam essa matéria da BBC, acessada em maio de 2022: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61367543