Em carta, Kinea analisa cenário fiscal e perspectiva de desaceleração na economia para 2027

São Paulo, outubro de 2026 – A Kinea Investimentos divulgou sua Carta do Gestor de setembro, intitulada “Highlander, o guerreiro imortal”. Na análise, a gestora avalia que quem vencer o segundo turno da eleição presidencial, em 25 de outubro, herdará a obrigação de promover um dos maiores ajustes fiscais desde a redemocratização.

Para a Kinea, a forma de pagar essa conta importará mais para o mercado do que o resultado das urnas. “As linhas do debate com o Legislativo terão de ser traçadas antes da posse, entre o segundo turno, em 25 de outubro, e a virada do ano. Nenhuma das duas campanhas apresentou até aqui uma proposta com esse grau de detalhe. Para o mercado, a eleição não se encerra em outubro: encerra-se quando o vencedor disser, com números, como pretende fechar essa conta”, afirma a carta.

Leia a carta mensal na íntegra: https://www.kinea.com.br/blog/carta-do-gestor-highlander-guerreiro-imortal/

O Orçamento de 2027 enviado ao Congresso projeta superávit primário apenas simbólico, com a dívida bruta no maior nível fora do período da pandemia. As simulações da Kinea indicam que é preciso um resultado primário ao redor de 2% do PIB para estabilizar a dívida e abrir espaço para a queda dos juros reais.

O desafio, segundo a gestora, não é só de tamanho, mas de instrumento: o ajuste terá de ser negociado com um Congresso fragmentado, que já retém parcela relevante do orçamento discricionário. “O Executivo herda a responsabilidade pelo resultado sem herdar o controle sobre a despesa”, diz a carta. Como as medidas precisam ser aprovadas no primeiro semestre para ter efeito em 2027, o debate com o Legislativo terá de começar antes da posse.

O cenário-base da Kinea para 2027 é de desaceleração, com PIB de 1,0%, inflação de 4,7% e Selic em 12,5% ao fim do ano. A projeção pressupõe um ajuste da ordem de 1,5% do PIB anunciado no início do mandato. A ausência de anúncio, ou uma guinada populista, provocaria choque de expectativas e, com alta probabilidade, interromperia o ciclo de cortes da Selic. “Se atacar o fiscal primeiro, o próximo governo navegará melhor o restante do mandato e comprará tempo para endereçar os demais temas.”

O Fed ouviu a curva

Nos Estados Unidos, a Kinea avalia que o Federal Reserve respondeu ao sinal que a curva de juros vinha emitindo havia meses. Com payroll forte, inflação ao consumidor acima do esperado e petróleo em alta, o Fed de Kevin Warsh aprovou por unanimidade sua primeira alta de juros desde 2023, e novas altas podem vir a depender dos dados. O rendimento do título de 10 anos superou 5%, nível inédito em duas décadas.

Para a gestora, a reação dos mercados sugere que a decisão foi correta. A Kinea mantém viés comprador de dólar contra moedas europeias, apostando na resiliência relativa da economia americana. Na Europa, onde o BCE promoveu a segunda alta do ciclo, a gestora diverge do mercado e vê a atividade perdendo tração nos próximos trimestres. Por isso, mantém posições aplicadas em juros europeus, além de México e Nova Zelândia.

IA: o que importa é a receita

No mercado acionário americano, a alta de juros não impediu o índice de reagir bem em setembro, sustentado por tecnologia e pelas grandes empresas do setor. Já consumo, utilities e habitação sofreram com juros e petróleo mais altos.

Em inteligência artificial, a Kinea considera que a proposta das grandes empresas de desacelerar lançamentos de modelos por risco de segurança não deve ter efeitos relevantes, diante da competição de modelos abertos, da proximidade de IPOs e da contestação antitruste. A principal preocupação da gestora está no crescimento da receita: os laboratórios precisariam sair de cerca de US$ 150 bilhões anualizados para algo próximo de US$ 450 bilhões ao fim de 2027, o que exige crescimento sequencial de cerca de 25% por cinco trimestres seguidos. “Só teremos clareza sobre o real ritmo de crescimento da receita quando as empresas divulgarem números auditados.”

No Brasil, a gestora construiu posição tática comprada em bolsa, principalmente via EWZ, diante da maior possibilidade de uma proposta mais fiscalista vencer as eleições. No exterior, concentra a exposição em tecnologia em opções de Nasdaq e em índices de Coreia e Taiwan.

A conta chega pelo diesel

Em commodities, as guerras no Irã e na Ucrânia seguem ditando os preços, e o diesel opera nos patamares mais elevados do pós-guerra. Os ataques ucranianos a refinarias russas levaram a Rússia a banir exportações, o que, somado à dificuldade de escoamento pelo estreito de Ormuz, produziu um aperto agudo. A preocupação, diz a carta, é que “o diesel permeia toda a atividade econômica de transporte de mercadorias”.

A gestora vê, por outro lado, o fluxo de petróleo em Ormuz subindo gradualmente, o que a deixa mais construtiva quanto a evitar um cenário extremo de preços. Nas agrícolas, a guerra pesa sobre milho e trigo, e o El Niño tem mais de 90% de probabilidade de permanecer até o início de 2027, com chuva acima da média no Sul e abaixo no Centro-Oeste e Sudeste na janela de plantio.

Carteira para atravessar a turbulência

A Kinea resume o posicionamento em quatro frentes: exposição tática ao Brasil na hipótese de um ajuste fiscal anunciado, juros aplicados onde o preço não condiz com a realidade econômica, cautela em inteligência artificial até que a receita volte a acelerar e uma cesta comprada em agrícolas, petróleo, ouro e cobre, que funciona como hedge. “Em períodos turbulentos, prudência e controle de risco não são o oposto da ambição: são o que garante chegar ao dia seguinte para exercê-la”, conclui a carta.

Sobre a Kinea Investimentos
Fundada em 2007, a Kinea Investimentos é uma gestora independente, integrante do grupo Itaú, que administra hoje mais de R$ 153 bilhões em ativos distribuídos em diferentes segmentos. Sua equipe reúne talentos diversos, orientados pela busca de ganhos consistentes no longo prazo. O crescimento da gestora é resultado da combinação entre a dedicação do time, a rápida adaptação das estratégias e o engajamento com profissionais de excelência.

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