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O futuro do crachá de trabalho

Para onde vamos com tanta gente desejando o fim do vínculo com empregador e com tanto especialista prevendo a troca de inteligência humana por artificial?

Usar crachá em ambiente corporativo tem para o empregado significados que vão além da identificação individual ou do mero controle de segurança. A plaquinha pendurada com logo da empresa, nome do usuário e, às vezes, a foto dele ajuda a irmanar colaboradores, dar aspecto responsável ao local de trabalho e promover uma sensação de pertencimento e de coletividade. Há também o papel de agilizar rotinas como registrar ponto e acessar locais.

O cativante objeto funcional de plástico restará preservado das mudanças rápidas e radicais que hoje sacodem a vida laboral mundo afora? Faço essa pergunta quando assisto a uma aceleração da tendência de desvinculação do contratado dos seus locais de ofício e de horários de jornada. Para onde vamos com tanta gente desejando o fim do vínculo com empregador e com tanto especialista prevendo a troca de inteligência humana por artificial?

Em meio a esse cenário estranho, o acessório que induz a produtividade individual, o comprometimento geral e a percepção externa da imagem da firma ainda figura como fonte de previsibilidade para tempos incertos. Apesar de as pesquisas dizerem que nunca houve tanta insatisfação com o emprego, fazer parte de uma sociedade empresarial parece ser o jeito mais cômodo e estável de honrar boletos, contribuir para o INSS e prever férias.

Com dezenas de milhões que jamais se empregaram formalmente e nem gozaram dos direitos legais, os trabalhadores informais respondem por uns 40% do total. Para piorar, a esperança deles de inserção no mercado recua à medida que avança a onda tecnológica e resistem velhos preconceitos, sobretudo o de idade. Sob o eufemismo de “falta de empregabilidade”, muitos acabam sem ter chance de revelar e refinar seu desperdiçado valor.

Nos templos mais sofisticados do emprego criativo, encontrar pessoas em suas áreas fixas de trabalho por oito horas diárias tende a ficar raro, mesmo sem os protocolos de pandemias. Percebeu-se o que se pode fazer em casa, relativizando relógio de ponto e presença física e valorizando interatividade de times conectados, seja lá onde estejam. No fim do dia, como dizem os americanos, os postos de trabalho darão lugar apenas ao “trabalho a postos”?