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A tensão econômica e política criada por Trump

Artigo escrito por Matheus Spiess, economista e analista de investimentos na Empiricus Research

A decisão de Donald Trump de impor uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros a partir de 1º de agosto acendeu um alerta vermelho em Brasília e no mercado. A medida, cinco vezes maior que a alíquota antes ventilada, não tem base econômica — os EUA mantêm superávit de US$ 3,2 bilhões com o Brasil neste ano — e revela um claro teor político: Trump alega retaliar perseguições do governo Lula e do STF ao seu aliado Jair Bolsonaro.

O anúncio pegou o Planalto de surpresa. Lula convocou ministros às pressas para discutir respostas, mas ainda busca calibrar o tom. O Brasil esperava alguma retaliação desde que o governo, na cúpula dos BRICS, adotou discursos críticos aos EUA, mas poucos imaginavam algo tão drástico. A retórica de Trump tem sido usar tarifas como instrumento de pressão política, elevando percentuais para, depois, negociar reduções e sair como “bom negociador”.

Embora os EUA sejam o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China, o impacto econômico tende a ser limitado. Em 2024, o Brasil vendeu US$ 40,4 bilhões aos americanos, o que representa cerca de 2% do PIB brasileiro. Petróleo lidera essa pauta, mas é facilmente redirecionável a mercados como China ou Europa. Produtos mais vulneráveis são café, carne bovina e suco de laranja — todos com peso na inflação americana e capazes de mobilizar o lobby ruralista local.

Politicamente, a crise cria embaraços para Bolsonaro, citado por Trump como vítima de perseguição, mas cujo nome se associa agora a uma crise que prejudica exportadores brasileiros. Ao mesmo tempo, oferece a Lula a chance de defender a soberania nacional e cultivar discurso patriótico. Ainda assim, há risco de que o impasse pressione o dólar e a inflação, corroendo a já frágil popularidade do governo.

Diplomatas brasileiros esperam que a tarifa não chegue a 50%, mas não descartam turbulências. Afinal, no governo Trump, o comércio exterior virou palco de blefes e negociações ruidosas. O Brasil precisará responder com firmeza, mas cautela. Como ensina a história recente, na guerra comercial de Trump, muitas vezes o barulho supera o dano real.

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