A volta de Donald Trump à Casa Branca abre uma nova etapa na política internacional, bem como o fortalecimento do movimento de extrema direita global. Órgãos internacionais como a OMC, ONU e OMS se preparam para momentos de muita turbulência.
Abaixo veja comentários de especialistas sobre a chegada do republicado ao centro do poder norte-americano. Também temos postagens com comentários sobre investimentos e tech:
Marcelo Vitali, internacionalista e empresário: “O comércio internacional certamente é um dos principais perdedores com a eleição de Trump. México, China e Brasil serão os principais impactados, com efeito negativo especialmente no setor de exportação. Em um de seus últimos discursos antes da eleição, Trump já enfatizou sua preferência pela aplicação de novas tarifas, ampliando a proteção para as empresas locais em detrimento das internacionais. Em seu último governo, por exemplo, ele adotou uma alta tarifa contra o aço brasileiro, afetando diretamente nossas siderúrgicas. Ainda assim, o problema sempre pode ser visto como oportunidade, apesar das dificuldades, como a necessidade de explorar novos mercados.
Além das questões comerciais, Trump se opõe a órgãos internacionais como a OMC, ONU e a OMS, adotando uma postura mais nacionalista e cética em relação à em relação à cooperação global e ao multilateralismo, o que ele considera uma perda de tempo.”
André Diniz, economista-chefe para internacional da Kinea: “O primeiro tópico que gostaria de pontuar é que a situação econômica de hoje é bem diferente de 2016, quando ocorreu o primeiro mandato do Trump. Naquele ano, não havia uma situação fiscal tão ruim quanto à de hoje e tampouco havia um grau de aperto da economia tão alto quanto o atual. Nesse sentido, então, a tendência é que políticas tarifárias ou políticas fiscais impactem mais a inflação. Nós não achamos que as políticas fiscais serão o foco da história. Acreditamos que a política tarifária estará mais no foco de trabalho do novo governo. Nesse sentido, o impacto seria provavelmente até negativo em termos de crescimento de outros países do mundo. De qualquer forma, na parte fiscal, devem ocorrer a extensão de benefícios fiscais a empresas ao mesmo tempo em que o governo promete cortar gastos. O resultado deste balanço de coisas deve favorecer mais o dólar para o Brasil e para os emergentes. Mas claro que é um governo que causa mais problemas, mais ruidoso. E, quando você tem a economia americana cortando impostos para empresas locais e colocando proteções tarifárias para suas indústrias, tendência é afastar os fluxos de capitais dos emergentes.”
Yuri Rugai Marinho, sócio-diretor da ECCON Soluções Ambientais: “A nova eleição de Donald Trump pode representar um enfraquecimento dos compromissos climáticos em todo o planeta. O republicano é contra os compromissos climáticos internacionais e a regulação ambiental como um todo. Em 2017, durante seu primeiro mandato, o presidente retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, um dos mais relevantes acordos internacionais já firmados. O Acordo de Paris é desdobramento da Convenção do Clima, firmada em 1992 dentro do sistema da Organização das Nações Unidas (ONU). No curto prazo, é possível que haja aquecimento de alguns setores da economia, principalmente em razão das suas promessas de reduzir tributação de empresas, não aumentar salários, redução de taxas de empréstimos, taxação de importações da China e corte gastos do governo. As mais beneficiadas, obviamente, serão as empresas americanas.
As exportações do Brasil para os Estados Unidos tendem a reduzir, tal como ocorrido no primeiro mandato de Trump. Mas, em contrapartida, as exportações para a China e demais países asiáticos podem aumentar – de novo, tal como ocorrido no primeiro mandato. No longo prazo, alguns setores podem ser prejudicados em razão de questões climáticas e reputacionais, uma vez que soluções climáticas terão sua velocidade reduzida. O agronegócio, provavelmente, será um dos mais impactados, já que depende de uma regularidade no clima.
É possível que a Europa traga regras ainda mais rígidas para as suas importações, a exemplo do que fez com a European Union Deforestation Regulation – EUDR. É previsto, também, um aumento na tensão entre os países, já que Trump pretende intervir nas relações dos Estados Unidos com a Ucrânia e Israel. O aumento da tensão deve elevar os riscos e, consequentemente, prejudicar as economias.”
Raony Rossetti, fundador da Melver: “Um dos principais setores que se beneficiará é o de commodities, especialmente o agronegócio. Sob a presidência de Trump, as tensões comerciais entre os EUA e a China tendem a aumentar, o que pode levar Pequim a buscar alternativas fora dos Estados Unidos para suprir sua demanda por commodities agrícolas. O Brasil, sendo um grande exportador de soja, milho e outros produtos do setor, poderá aproveitar essa intensificação nas relações comerciais entre EUA e China. Esse deslocamento de demanda favorece diretamente o agronegócio brasileiro, que encontra na China um dos principais mercados consumidores para suas exportações. Com uma postura mais agressiva nas negociações comerciais com a China, o Brasil deverá experimentar um aumento nas exportações de commodities, o que contribuirá para o crescimento das receitas de exportação e a valorização de empresas ligadas ao setor agrícola. Por outro lado, há riscos significativos para setores como o de produtos manufaturados e minerais, especialmente se Trump implementar medidas de proteção econômica como tarifas globais. Isso representará um desafio para a indústria brasileira, que poderá enfrentar uma diminuição no acesso ao mercado norte-americano. Uma política tarifária mais agressiva de Trump, se não vier acompanhada de novas isenções para o Brasil, poderá reduzir a competitividade dos produtos brasileiros nos EUA, prejudicando setores que dependem fortemente dessa parceria comercial.”




