Este livro foi publicado pela editora Companhia das Letras.
“Tantas vezes pensei em escrever um diário. Seria como um memento que me valeria no futuro, caso eu efetivamente me decidisse a relatar minhas experiências romanas. Comuniquei o desejo à minha mãe, que tinha uma veia artística latente e fazia gosto em estimular minhas veleidades literárias. Fez questão de ir à papelaria comprar um diário, que eu imaginava com uma capa de couro preta ou de crocodilo. O que ela me trouxe, porém, tinha uma capa plastificada com ilustração de borboletas e o título com caligrafia infantil:
Diario del Bimbo. Tendo gerado um filho atrás de outro, era compreensível que ela se atrapalhasse com a idade mental de cada um. Dei o diário de presente para minha irmã caçula colorir no asilo, como eram chamadas na Itália as escolas maternais. De qualquer forma, pensando melhor, eu não conseguiria descrever honestamente o que se passava à minha volta no dia a dia, pois mesmo as memórias mais recentes seriam retocadas à medida que eram escritas. Achei melhor largar mão da ideia de um diário e deixar que o esquecimento fizesse o seu trabalho. No futuro a imaginação cobriria as lacunas da memória e os acontecimentos reais se revezariam com o que poderia ter acontecido.”



