Antes de tirar a própria vida, ao ver-se encurralado entre fronteiras enquanto fugia do nazismo, Walter Benjamin filosofava o suicídio como um gesto contra a alienação e o esvaziamento: a morte não apenas como um fim, mas como um ato carregado de potência simbólica.

Coincidentemente, ou não, estão em cartaz no cinema (agora no início de dezembro de 2024) dois grandes filmes que abordam o tema do suicídio. No premiado O Quarto ao Lado (2024), ganhador do prêmio de melhor filme no Festival de Veneza de 2024, de Pedro Almodóvar, o sabor da vida se revela através do halo aquoso das lembranças (do vivido e do não vivido), onde uma doença terminal e uma relação de amizade caminham até a última página.

O filme é estrelado por Tilda Swinton, que faz o papel de uma ex-reporter de guerra diagnosticada com um câncer terminal e por Julianne Moore, que interpreta uma escritora que vê na morte apenas um tema para a ficção.

Num contexto diferente da película do diretor espanhol está Dying – A Última Sinfonia (2024), de Matthew Glasner, premiado com o melhor roteiro no Festival de Berlin. Sendo este último mais masculino e imbuído de um certo heroísmo alemão, enquanto o de Almodóvar é mais feminino e guiado pelo erotismo.

O tema da morte por ser universal nunca sai de cena, mas desde Mar Adentro (2004), de Alejandro Amenábar, estrelado por Javier Barden, não se viam filmes tão fortes abordando a questão com diálogos e desenvolvimento nesse grau de perfeição.

Talvez instados por essa grave crise de sentido: com guerras, caos climático, e o esfacelamento social, essa vertigem existencial esteja tão pertinente. Ou quiça, a necessidade de se discutir a eutanásia que já é permitida na Suíça, e que foi a saída de Alain Delon.

Contudo há outra leitura pro tema muito bem explorada no Dying – A Última Sinfonia, onde um compositor (Robert Gwizdek) com pulsões suicidas acompanha os ensaios de sua sinfonia que será regida pelo maestro (Lars Eidinger) que protagoniza o filme. À medida que o dia da estreia se aproxima a angústia do compositor se acentua, de modo que a realização da obra equivale a morte do criador. Num sentido figurativo, quando a criatura nasce, o criador perde seu lugar no mundo. É a morte como produção para a vida.

As duas são obras preciosas pra quem busca se reconectar com a vida, ambas realizações autorais onde o diretor acumula a função de roteirista (ressalvado que O Quarto ao Lado é baseado no livro de Sigri Nuñez, “O Que Você Está Passando”).

Para quem tiver a chance de assistir apenas um deles no cinema, recomendo Dying, que tem cerca de 3 horas e 10 minutos de duração, e a ousadia de um magnum opus.

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