O segmento de tecnologia deve ser um dos que mais vai sentir a mudança de governo nos Estados Unidos com a chegada do republicano Donald Trump à Casa Branca. A regulamentação para inteligência artificial, por exemplo, deve ser afrouxada e haja um enfático apoio ao segmento. Talvez não tenha sido à toa que Elon Musk atuou como garoto propaganda de Trump além de relevante financiador de sua campanha. De acordo com a Bloomberg, o bilionário despendeu US$ 119 milhões — cifra aliás já recuperada com a alta nas ações da Tesla no dia do anúncio da vitória de Trump.
Já que o tema é quente e desperta muitas dúvidas, listamos abaixo comentários de especialistas em inovação, tech e criptomoedas sobre os impactos da gestão trumpista em seus segmentos:
Bruno Balduccini, sócio do escritório Pinheiro Neto Advogados: “Em linhas gerais, a eleição de Trump tende a ser positiva no mercado de cripto americano. Os órgãos reguladores e fiscalizadores que olham o mercado de cripto americano e que vinham se mostrando mais punitivos e duros com a indústria tenderão a ser menos intervencionistas e buscarão dar mais liberdade para inovação. Como consequência, isso deve favorecer o Brasil, visto que há bastante influência das decisões tomadas nos EUA por aqui, em especial perante a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).”
Junior Borneli, CEO da Startse: “No cenário que envolve Inteligência Artificial, a vitória de Donald Trump indica que deve haver uma redução no foco sobre regras formais ou práticas recomendadas para seu desenvolvimento e uso nos Estados Unidos. Espera-se que Trump adote uma postura de menor intervenção estatal e de menos incentivos para práticas de desenvolvimento responsáveis, além de menor ênfase em diretrizes éticas. Por outro lado, provavelmente buscará criar um ambiente mais favorável para a inovação, com foco em impulsionar a competitividade das empresas americanas no setor de IA e a liderança global no tema, principalmente à frente dos chineses. É provável também que intensifique a guerra comercial com a China, principalmente quanto à venda de tecnologia avançada. O atual presidente Joe Biden já havia proibido a exportação de semicondutores de alta tecnologia, especialmente aqueles usados para desenvolvimento de IA. Trump pode expandir essas restrições para incluir mais componentes ou até proibir completamente a venda de equipamentos críticos para empresas chinesas. Sob o novo governo, também pode haver um incentivo exagerado para que empresas como Apple e Tesla diminuam sua presença na China e reduzam sua dependência da cadeia de suprimentos de origem chinesa. Vale lembrar que 90% dos chips avançados da Nvidia, uma empresa americana, são produzidos em Taiwan, uma região sensível na relação entre EUA e China.”
Pedro Henrique Ramos, fundador e diretor-executivo do centro de pesquisas Reglab: “Entre os vários setores que serão afetados pela vitória de Donald Trump, está o de Inteligência Artificial. Se sob Biden, o Executivo americano propôs um arcabouço de governança responsável do uso de IA – atuando principalmente por orientações via ordem executiva –, no novo governo Trump, a expectativa é de mudança significativa. Trump já fez declarações contrárias ao modelo regulatório de Biden. Ele acha que esse é um modelo que pode acabar com a indústria de IA dos EUA e, nas palavras dele, fazer com que os EUA também percam a corrida de IA para a China. Existe uma influência grande de alguns apoiadores da campanha de Trump que têm uma visão bastante libertária, no sentido de evitar ao máximo leis para o setor de tecnologia. Estamos falando de atores como o fundo Andreessen Horowitz, além do próprio Elon Musk. A visão ‘laissez-faire’ de Trump com IA, no entanto, não significa que o republicano não terá uma política para o setor de IA. Estamos falando de incentivar as empresas a criarem mais, em uma postura muito competitiva com a China. Ele deve adotar o discurso de que ‘não pode ter regulação, porque precisamos incentivar que nossas empresas cresçam livremente para competir com os chineses’.”






