Óculos são dispositivos ópticos que funcionam como uma espécie de segunda visão para que as pessoas possam enxergar melhor. O único problema é que eles só ajudam enquanto estiverem bem em cima do nariz. Quando retirados do rosto, param imediatamente de alterar a realidade. “Por isso”, pensou Alvo, “é muito importante mudar o final desse sonho. Enxergar cores em precisar recorrer a nenhum instrumento externo ou artificial.”
Isso porque “enxergar” não costuma ser uma escolha fácil ou apenas voluntária. “Passa a enxergar, então”, refletiu Alvo, “não é tão simples.” Na verdade, o menino começava a reconhecer como era até dolorido entender o que significava ser quem ele era em meio a tantos outros.
No começo das aulas sobre escravidão, e de sua amizade com Ebony, ele achou mais rápido jogar o problema embaixo do tapete e concluir: “Afinal, não tenho nada a ver com essa história. Meus antepassados também vieram de fora, não foram escravocratas e também demoraram para se habituar com o novo país.” No entanto, logo ele notou que essa ideia era bem frágil; não passava de uma desculpa que inventava para tentar não sofrer com a certeza de que ser branco ajuda muito no Brasil.
E quando o menino começava a pensar num assunto, não parava mais. E sabe de uma coisa? Apesar de gostar de “estudar os outros” e de se interessar por povos “diferentes”, o que ele realmente nunca tinha feito era parado para estudar a si mesmo e reparar que ser branco era também ter uma raça, uma cor de garantia um lugar diferente nos clubes, nos restaurantes, nos teatros… Isso tudo parecia “tão normal”… Aliás, se não fosse a escola ele (talvez) nunca chegasse a reparar.
Por sinal, Alvo resolveu prestar atenção nesse verbo: “reparar”. “O que seria reparar?”, matutou ele, “Olhar bem? Parar para observar?” Alvo achou que era pouco.
Resolveu, então, recorrer ao velho e bom dicionário. Foi lá na letra R e leu: “Transitivo direto, pôr em bom estado (o que havia estragado), consertar, restabelecer”. Não era preciso usar óculos de cor para entender que o verbo “reparar” tinha tudo a ver com o que a professora dissera sobre “reparação”.
O garoto foi mais uma vez ao dicionário e procurou por “reparação”. Achou, então “reparação histórica”: “Se refere a ações pensadas para mitigar ou amenizar injustiças cometidas no passado contra determinadas comunidades ou grupos sociais”.
“Pronto! Era isso”, pensou ele. Era preciso “reparar” erros, consertar injustiças.



