Por Giovanna Wolf e Jader Fernandes, sócios da agência Ovo Comunicação
Desde o final do ano passado, a inteligência artificial (IA) ocupou espaço no debate público, na esteira do ChatGPT. O tema, naturalmente, foi o grande destaque nos palcos, pavilhões e filas da primeira edição do Web Summit Rio. Mas a conversa foi de alto nível: o mega evento aprofundou as múltiplas discussões sobre IA e IA generativa e expôs diferentes posicionamentos de líderes globais de inovação sobre o uso da tecnologia.
Em um mesmo lugar, estavam líderes de startups entusiastas de IA e personalidades como Meredith Whittaker, presidente do app de mensagens Signal, que disse categoricamente que o “ChatGPT é uma porcaria” – e foi ovacionada pela plateia. A executiva deixou o Google em 2019 por não concordar com a conduta da empresa no desenvolvimento de IA, tornando-se uma das principais críticas das big techs e defensora da privacidade dos usuários. “O ChatGPT se parece com um tio que aparece nos feriados, bebe álcool e fala com confiança sobre temas que ele não sabe do que se trata”, afirmou em seu painel.
Com esse contraponto, a discussão tornou-se mais realista. Os próprios profissionais do mercado de startups reconheceram a importância das falas de Whittaker – muitos pararam a presidente do Signal durante o evento para parabenizá-la. Houve uma provocação: quais avanços a IA pode trazer de fato? Como usar a ferramenta de forma responsável?
João Duarte, CTO da escola de tecnologia Trybe, tem sido uma voz recorrente para comentar sobre o avanço da inteligência artificial. O especialista, que esteve presente no evento, desmistificou a crença de que a inteligência artificial é uma grande novidade no ecossistema do mercado financeiro e de fintechs. “A IA já se faz presente há décadas neste setor. Risco de crédito sempre foi uma das principais aplicações dos modelos de machine learning. Aliás, isso impulsionou o desenvolvimento de muitas tecnologias, inclusive as redes neurais, que são a base do que conhecemos como IA atualmente. Temos também o antigo caso de uso de quantitative trading, que usa modelos para identificar oportunidades de investimento”.
Segundo Duarte, é a ascensão da IA generativa que observamos atualmente que trará novas aplicações para o segmento financeiro. “Alguns exemplos são chatbots para atendimento do cliente, seja venda, suporte ou cobrança, passando por processamento de documentos, até enriquecimento de informações para modelos de crédito e fraude”, diz.
Danillo Branco, CEO da Finansystech, startup recentemente adquirida pela Celcoin — que marcou presença no Web Summit Rio com um stand no pavilhão três — destaca que a inteligência artificial permite grandes avanços, como o aumento da capacidade da visão holística sobre as finanças de uma pessoa. “Por muitas vezes, uma análise humana não enxerga todas as capacidades de melhoria da saúde financeira, até mesmo pode falhar em uma recomendação de investimento. Portanto, combinar a capacidade da IA com o processo humano, pode trazer uma nova era de melhorias para a vida financeira das pessoas”, detalhou.
Em uma análise geral do evento, Juliana Innecco, head de investimentos do Torq Ventures, corporate venture capital da Sinqia, viu como positiva a sofisticação da conversa. “A IA que discutimos hoje ainda não tem tanta aplicação – ainda não sabemos como vai ser o futuro dessa tecnologia e como ela vai disruptar o mercado. É importante unirmos a IA mais tradicional com um olhar aprofundado sobre as novas ferramentas para gerar mudanças efetivas no mercado”.



