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Para terror do conservadorismo

Somos propensos a discutir a vida sexual alheia, enquanto o sexo é um tabu dentro das relações

Somos propensos a discutir a vida sexual alheia, enquanto o sexo é um tabu dentro das relações

Por Sérgio Bivar

cenas de um casamento - hbo max
Divulgação/HBO Max

Foi a premiada serie “Sessão de Terapia” que levou o filho mais novo de Ingmar Bergman, responsável por administrar o legado do pai, a escolher o diretor israelense Hagai Levi para dar novos ares a minissérie “Cenas de Um Casamento”, relançada este ano.

Originalmente exibida em 1973, foi estrelada por ninguém menos que Liv Ullmann, musa e ex-mulher de Bergman, numa época em que as séries televisas não eram valorizadas como arte, e a DR (discussão de relacionamento) não era ainda um gênero cinematográfico estabelecido.

O enredo trata uma crise conjugal e traz à tona elementos como monogamia, estrutura familiar, traição, arrependimento e libertação.

Bergman, reconhecido pela sensibilidade e intensidade, certamente não ficaria desapontado com a releitura da obra.

O remake atualiza uma crítica que nunca perdeu relevância, e exige um esforço de alteridade, visto que a grande sacada de Levi foi inverter os papeis: Marianne (Jessica Chastain) aparece como a provedora da família, deixando o professor de filosofia Jonathan (Oscar Isaac) com as funções domésticas.

Ainda que os diálogos sejam intensos, a obra escapa dos fastidiosos excessos verborrágicos tão comuns ao gênero (como “Closer – Perto Demais” e “História de um Casamento”).

Nossas raízes judaico-cristãs não estão plenamente recalcadas, nossa racionalidade encobre uma selva de afetos, e o autocontrole se reveste de um conhecimento e incomodo silêncio que desmoronam na progressão da trama. Somos propensos a discutir a vida sexual alheia, enquanto o sexo é um tabu dentro das relações.

Na contramão da expectativa de vida, a mortalidade do casamento também avança, e faz da série caso de estudo.

O fato de ter sido mais uma produção da era pandêmica é documentado na cena de abertura do segundo capítulo, externalidade que certamente levou o confinamento monogâmico a novos limites.

A liberdade econômica, mãe de todas as liberdades (ao menos aos liberais de carteirinha), puxa mais essa revolução. Com os dois gêneros, em pé de igualdade, propensos a novos pactos e enfrentamentos.

Vivemos num mundo onde o desejo circula. Entre os jovens, o pólen do poliamor fecunda. A posse cede ao descompromissado uso e ao proveito mútuo. O desejo circula em abundância, para terror do conservadorismo.

A série está disponível na HBO Max. Confira o teaser:

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