No mundo corporativo coabitam todos os tipos de personagens. Eles compõem times cada vez menos estáveis e despejam no trabalho os seus sonhos, talentos e carências, que precisam forçosamente se encaixar ao estilo e ao planejamento dos seus líderes. E mesmo quando se fala tanto na vantagem da diversidade de perfis – raça, idade, classe social, gênero e identidade sexual –, montagens de equipes deixam lacunas e cometem excessos.

Ocorre que as radicais mudanças da cultura organizacional verificadas nos últimos anos, graças à crescente dominância da tecnologia e a uma nova mentalidade, tornaram mais complexa a tarefa das áreas de Recursos Humanos de escolher, contratar e preservar colaboradores para o quadro regular de pessoal. E na dúvida sobre qual procedimento adotar, recorre-se a soluções insuficientes, baseadas em automatização e nos modismos.

O mais estranho deste cenário atual está na recorrente e constrangedora situação dos profissionais sêniores que podem até serem “os caras”, por sua competência e experiência, mas acabam sendo ignorados por não serem “a cara” esperada da organização. O indivíduo com visão 360 graus sobre o negócio, testemunha ocular de diversos casos reais de desafios e dono de conhecimento acurado sobre processos e personalidades acaba sobrando.

A imagem que desenho na minha como paródia dessa comédia de erros nas organizações é a da impropriedade de se colocar piano de cauda no meio do boteco “copo sujo”. O artigo luxuoso vira logo um estorvo, seja porque tira espaço de circulação e assentos para clientes, seja porque requer cuidados para não sofrer danos na superfície envernizada. Tal qual o caro e grande vaso chinês que decoradores de escritórios quebram cabeça para achar lugar onde deixá-lo sem tirar atenção do restante dos objetos ou se espatifar.

Em outros tempos podia-se se dar ao luxo de alojar medalhões da casa no andar de cima, uma forma de reconhecimento e de não descartar com afoiteza um valor que pode servir de inspiração para as equipes. Como conselheiro ou símbolo vivo, o contemplado podia até não gostar de “cair pra cima”, mas havia a opção. Hoje, na forma de preconceito, craques em busca de recolocação são preteridos porque se quer pagar o menos possível e exigir demais de inexperientes. Em vez de empoderar, o piano chique empoeira.

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