A forma com que me relacionava com as aulas de História talvez fosse um indicativo de que eu ia acabar no mercado financeiro. Sempre que aprendia sobre algum grande acontecimento, que de certa forma definia o rumo do mundo, era inevitável que eu pensasse em todas as outras probabilidades.
Na II Guerra Mundial, por exemplo, as forças aliadas derrotaram o Eixo, que era formado por países de regimes totalitaristas, como o nazismo e o fascismo.
Mas há detalhes ignorados pela maioria dos livros da escola que nos mostram como esses grandes acontecimentos são cercados de episódios improváveis — e, sobretudo para quem investe no mercado financeiro, apontam para a importância de agir sempre com uma margem para esses imprevistos.
Os livros de História relatam que a Batalha de Stalingrado, em 1942, foi decisiva para a vitória dos aliados. Os alemães, que haviam ocupado a região, estavam prontos para receber uma ofensiva soviética, mas foram derrotados de forma bastante surpreendente.
Segundo o historiador William Craig, os alemães tinham os tanques de guerra mais sofisticados do mundo; no entanto, dos 104 tanques disponíveis, menos de 20 estavam em condições de combate, o que facilitou em muito as ações soviéticas.
A causa? Durante as semanas de inatividade nas linhas de reserva, os ratos do campo da região fizeram ninhos dentro dos veículos e roeram todo o isolamento que cobria os sistemas elétricos. A pergunta que fica: haveria algum estrategista capaz de prever um evento como esse?
O planejador financeiro Carl Richards (eu adoro os desenhos dele! Veja aqui) define como risco “aquilo que sobra quando você acha que já pensou em tudo”. Essa é uma lição que precisamos exercitar diariamente, na condição de investidores.
Todos nós temos uma visão incompleta do mundo – como o exército nazista, que (felizmente) desconsiderou a existência dos ratos – que preenchemos de forma ilusória para criar uma narrativa completa.
Daniel Kahneman, Prêmio Nobel em 2002 com seus estudos sobre economia comportamental, diz que a capacidade que temos de explicar eventos passados (“olhar no retrovisor”) nos dá a ilusão de que o mundo é compreensível e faz sentido, mesmo quando os eventos não têm a menor coerência entre si.
Parte do motivo pelo qual é tão difícil prever o mercado de ações e a economia ocorre porque você é a única pessoa que pensa que o mundo funciona da maneira que você imagina. E, na minha opinião, isso é o que faz do mercado financeiro uma área tão fascinante.
Se você concorda comigo, aproveito o espaço para lhe fazer um convite: na próxima segunda-feira vai estrear um projeto inédito que eu terei o orgulho de apresentar.
Trata-se da Formação: Gestor de Fundos, fruto de uma parceria nossa com a FAAP, instituição de ensino com 75 anos de tradição, que dispensa maiores comentários.
Este programa vai reunir um conteúdo muito denso e voltado para formar os próximos profissionais de ponta do mercado financeiro. Para saber mais, é só deixar seu e-mail aqui.
E já que estamos falando de imprevistos… Os EUA estão tendo que lidar com um dos grandes por lá: a inflação.
Será que o Banco Central americano já contava com um aumento exorbitante da inflação? Ok… tudo bem que nós aqui também sofremos com esse aumento, consequência da guerra na Ucrânia, que impulsionou os preços devido à alteração na oferta de suprimentos.
Fato é que a inflação surgiu como um imprevisto para a maior potência mundial e, sinceramente, eles estão ‘apanhando’, pois os números atuais são os maiores em mais de 40 anos. Viu só a importância de se ter um plano para lidar com imprevistos?
Para eventos como esse, a solução é quase que unânime: aumento das taxas de juros e aperto do ciclo monetário. Depois de algumas altas…
Hoje saíram os dados da inflação ao consumidor: aumento de 0,4% para setembro, bem acima do esperado. O núcleo da inflação (excluindo itens mais voláteis, como alimentação e energia) foi pior ainda, com alta de 0,6%, enquanto o esperado era 0,4%.
Após este anúncio, os mercados caíram muito. O S&P 500 (índice norte-americano de ações) chegou a cair quase 2,5% pela manhã, com medo de aumentos mais fortes das taxas de juros por lá (esperamos um aumento de 0,75% na próxima reunião).
Mas se existe algo imprevisível, são os mercados. Em um movimento técnico de alocação de risco, o S&P 500 virou e até o meio da tarde já estava com mais de 2% de alta. Um movimento de 4,5% em apenas algumas horas.
A “explicação” foi pelo fato de os agentes do mercado terem diminuído fortemente as posições na terça-feira, antes dos dados de inflação. Isto é, essa inflação acima do esperado já estaria no preço.
Prefiro dizer que faz parte de alguns movimentos imprevisíveis que acontecem, principalmente no curto prazo.



