Engenheiro por formação e com MBA em Harvard, Mariano García-Valiño é um empreendedor com mais de 25 anos de experiência em biotecnologia, tecnologia médica e saúde digital.
Em 2020, fundou a Axenya, e atualmente lidera a healthtech no cargo de CEO, posição que também já ocupou em outras empresas privadas e públicas ao longo da carreira. Apaixonado por tecnologia, o argentino tem uma forte relação com uma cidade do país vizinho ao seu de origem. Conheça a história do executivo na entrevista a seguir.
Qual a sua melhor memória de infância?
A minha memória mais forte da época foi a passagem na escola, conheci pessoas que ainda são meus melhores amigos. Passei toda a minha infância na Argentina. Aos 13 anos, comecei a sair na rua, fora da minha bolha. Nesse momento, entendi que podia aprender outras coisas com pessoas muito diferentes – até então, a minha vida era homogênea, todos tinham pensamentos parecidos. Foi uma experiência muito boa.
Um livro ou um filme que mudou sua vida.
Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, do Kahneman. Depois que li, fiquei entusiasmado com ciência do comportamento. O fato de que o cérebro funciona diferente do que pensamos ou percebemos é superinteressante. Ele me ajudou a avaliar onde que estava errando e mostrou como repensar algumas ideias. Mudou a forma como penso.
Qual é o seu lugar preferido?
Punta del Este. Eu morei em muitas cidades e países ao longo da minha vida, mas sempre vi diferença em Punta del Este, desde criança. É a única cidade que sinto pertencimento. Tenho fortes raízes, é o local onde conheci minha esposa e que temos a nossa casa definitiva, aquela que consideramos um lar, escolhemos cada móvel e tudo mais.
Descreva um dia perfeito.
Um dia quente e bonito em Punta del Este. Acordo cedo e faço café. Fico um bom tempo lendo e meditando. Depois, vou em alguma cafeteria e sigo lendo minhas revistas favoritas e algum livro. Saio com minha esposa e meus filhos para almoçar juntos. À tarde, conversamos e vemos um filme em casa. Podemos jantar fora também, não tem que ser um lugar chique, pode ser na praia ou um lugar próximo.
Para você, o que é sucesso?
Eu me faço essa pergunta o tempo todo. Em grande parte, acho que é ter impacto nas outras pessoas, construir algo que muda a vida dos outros de algum jeito. Pode ser grande ou pequeno, em alta ou baixa escala. Fazer alguma coisa com o que recebeu, se teve a sorte de receber educação privilegiada, por exemplo. Na verdade, toda educação é privilegiada, dado que muitas pessoas não têm acesso. Sucesso é usar isso para deixar algo para os demais. E, definitivamente, não é quanto dinheiro você recebe. É uma armadilha pensar assim.
Qual foi a sua maior superação?
Quando eu saí do mundo corporativo para começar a empreender. Venho de uma família tradicional, com aquela cultura de: escola, faculdade, emprego. Então, foi muito difícil essa mudança. Deixei uma multinacional para construir uma companhia e tomar o risco de ganhar dez vezes menos. Minha esposa e eu tínhamos duas crianças pequenas, lembro que ela me olhava com uma cara de “vou te matar” [risos]. Eu calculava todas as semanas em uma planilha quantos “meses” de dinheiro tinha em caixa. Aconteceram muitas coisas que eu não imaginava. Nesse momento, aprendi a deixar tudo fluir, sem tentar controlar o destino. Parte do problema dos “cdfs”, como eu, é achar que pode controlar o mundo. Isso é uma crença estúpida. O que você pode fazer é confrontar cada dia e fazer o melhor neles.
Alguém que te inspira.
Warren Buffet, sem dúvida. Admiro a inteligência, a sabedoria e a forma que vive como qualquer um de nós, apesar de ser um superbilionário. Ele não está motivado pelo dinheiro, tanto que doa sua fortuna para terceiros. Ele quer deixar um legado. Assisti a uma palestra dele ao vivo, uma vez. Nela, ele fez um cálculo, do tipo: “eu tive X por cento de chances de nascer nos Estados Unidos, X por cento de chances de meus pais conseguirem pagar uma universidade, X por cento de chances de conhecer tal pessoa”. No final, chegou a um número próximo de 97%. “Tudo isso foi sorte, a partir daí, eu fiz alguma coisa”, disse. Essa humildade de falar que tanto do que conseguiu foi sorte me fez pensar que deveríamos ser mais generosos com quem não teve muito.
Como se vê daqui a 10 anos?
Tenho um pouco de medo, para ser honesto. Estou com 55 anos, e já vejo pessoas da minha idade que se aposentaram. Mas eu não me vejo aposentando, nem nos próximos 20 anos. Não me vejo saindo da área de tecnologia. Na minha casa, sempre fui o que mais fala de tecnologia e computadores. Os meus filhos vêm me perguntar sobre isso para mim e fico super orgulhoso. Eu tenho pânico de que um dia seja o contrário, de falar para eles: “coloque as horas aqui para mim, pois eu não entendo” [risos]. Os resultados e a tração da companhia que começamos estão surgindo, acho que vai ser interessante, eu me vejo trabalhando nela.
Se pudesse resolver um problema do mundo, qual seria?
Mudanças climáticas. Para mim, é ultra assustador o que está acontecendo e não vejo esforço suficiente para resolvê-las. Acho que as pessoas não estão cientes do que isso vai significar no futuro.



