Como vai, tudo bem?

A comunicação digital, a mesma capaz de conectar pessoas dispersas pelo mundo, minou relações interpessoais?

A capacidade de conversar moldou o gênero humano e evitou que ele se dizimasse em guerras evitadas. Ela engendrou também o mais comezinho dos prazeres sociais, receitado como terapia para conter a degradação física da velhice e preservar a saúde mental. E mais: “o bate-papo é a maior forma de diversão que existe”, como dizia o saudoso Jô Soares, responsável por popularizar o talk show no Brasil. Apesar disso tudo, o diálogo está em crise.

Ser ouvido pelo outro sobre aquilo que deseja expressar livre e diretamente continua sendo demanda da natureza de quase todos. Contudo, a moderna tecnologia turva tal desejo com regras que enfatizam as amplas audiências sem rosto e a impiedosa sindicância popular acerca de gostos e de repulsas. Os algoritmos que regem barulhentas redes sociais seguem protagonizando a perda dos espaços, oportunidades e repertórios da boa e velha conversa.

Não é por acaso que após dois anos de pandemia uma das expressões mais ouvidas hoje seja algo como “sinto falta de olho no olho”, uma reação ao desconforto com o avanço do ambiente virtual para além do razoável. Isso tudo antes mesmo de a carência por conexão real, autêntica e gratificante ser exposta à fase mais completa do Multiverso. A comunicação digital, a mesma capaz de conectar pessoas dispersas pelo mundo, minou relações interpessoais?

As virtudes educativas, criativas, diplomáticas e curativas do diálogo entre instituições, países e sociedades estão sendo golpeadas pelo fenômeno que cria curiosas dificuldades para duas almas interagirem amistosamente. A máxima “é conversando que a gente se entende” continua válida, mas não dá para ignorar a invasão crescente e perturbadora da interface eletrônica neste entendimento. Nessa toada, o zap-zap tomou lugar do telefonema.

O modo irritadiço como nos comportamos ao não ver resposta instantânea nos aplicativos de mensagens instantâneas sugere quase uma preferência pelo robô no outro lado da linha. Receio então que possamos vir a abandonar o costume de saborear uma descontraída prosa no banco de praça, no café da esquina e na sala de estar. Pena. Explorar riquezas de uma simples linguagem coloquial é ir ao encontro do mais fantástico ser deste maravilhoso planeta.

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