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Escassez de containers eleva em até 427% o valor dos fretes para o Brasil

Restruturação feita no lockdown ainda impacta nos preços; negócios com países asiáticos são os mais caros para empresas brasileiras

A escassez no volume de containers é um dos principais motivos para o aumento dos fretes de importação para o Brasil. O movimento de aumento dos preços teve início pouco antes do começo da pandemia, em março de 2020, se agravando com o lockdown, que provocou o fechamento das fronteiras e comércios. De acordo com dados levantados pela Kestraa, startup especializada na gestão e monitoramento de cargas do comércio exterior, a mediana do frete da Ásia, um dos principais importadores do Brasil, foi de US$ 1,9 mil, em janeiro de 2020, para US$ 9,8 mil, em janeiro de 2022, elevação de 416%.

Fonte: Kestraa

O cálculo foi feito com base nas medianas de preços envolvendo mais de 12 mil cargas transportadas entre Brasil e outros países desde 2020. A metodologia exclui transações muito mais caras e muito mais baixas do que a média, para evitar discrepâncias.

Ainda no comparativo entre os anos de 2020 e 2022, a mediana do preço do frete global para o Brasil saiu de US$ 1,6 mil para US$ 2,6 mil, um aumento de 67%.

“Uma quantidade significativa de containers foi retirada do mercado para uma reestruturação necessária ao período de isolamento, no entanto, mesmo após a reabertura esse número permaneceu reduzido, aumentando a demanda por mais rotas e equipamentos, o que contrasta com a redução de ofertas, elevando os preços”, explica Marcelo Matos, sócio fundador da Kestraa, startup focada em gestão de comercio exterior.

A diferença entre os preços do frete global e do frete da Ásia é explicada pelo modal utilizado para transportar a carga, podendo ser usado modais terrestres, entre países da América do Sul, e modais marítimos e aéreos, entre países mais distantes. Contudo, o aumento dos valores para modais iguais deve-se à alta busca para pouca oferta.

Apesar do frete global registrar uma redução de 24% em junho de 2020, quando atingiu US$ 1,2 mil, os preços continuaram a subir. Em 2022, alcançou a marca de US$ 2,7 mil, elevação de 122% se comparado ao mesmo período.

Já as negociações com a Ásia não tiveram trégua. Entre junho de 2020 e junho deste ano, houve aumento de 363% – com preços cotados em US$ 6,67 mil no mês passado. O maior valor, no entanto, foi registado em fevereiro de 2022, quando chegou a custar US$ 10 mil, 427% a mais que em fevereiro de 2020.

“Houve uma época na qual o frete era considerado uma commodity, eram muitos containers disponíveis, com fretes da China para o Brasil custando até 150 dólares. Na pandemia, essa oferta diminuiu, então o frete aumentou muito. Com a disponibilidade de operadores reduzida, dificilmente haverá o mesmo número de equipamentos preparados para fazer embarques”, continua.

Setor primário é o mais afetado pelo aumento nos preços
“Os setores de baixo valor agregado são os que mais sofrem com os valores, como têm produtos sensíveis a preço e têm um impacto maior na conta final, eles acabam sendo os mais afetados. O varejo é muito impactado, mas não por causa do frete em específico, e sim devido à forma de comércio”, explica Matos.

A indústria e empresas de componentes eletrônicos também são afetadas, porque são companhias que precisam de mercadorias internacionais. Objetos que vêm da Ásia sofrem muito com isso porque, embora a China consiga ter uma indústria eficiente em custos, são produtos com baixo valor agregado.

Nos últimos anos as vendas pela internet tiveram uma evolução considerável, o que se intensificou durante a pandemia. De acordo com dados da Webshoppers 45, relatório realizado pela NIQ Ebit em parceria com a Bexs Pay, o setor de vendas online bateu o recorde de faturamento em 2021, apresentando um lucro de R$182,7 bilhões, crescimento de 27%. O período de maior alta foi de janeiro a abril, destacando-se o mês de março, quando a elevação em comparação com 2020 foi de 75%.

“Com a alta do consumo pela internet vemos muito mais empresas fazendo operações internacionais. Isso não é só no Brasil, mas também na Europa e em outros continentes. O mercado web tem consumido muito: a Amazon, por exemplo, tem um movimento de construir a logística própria como forma de diminuir custos”, ressalta.

Tentando segurar os preços, agentes de cargas buscam trazer tecnologias para agilizar e baratear o processo de importação e exportação. No entanto, Marcelo explica que esse é um custo que está nas mãos das empresas montadoras, proprietárias dos navios, e que soluções serão possíveis a partir do interesse do mercado.

“Devido aos diferentes processos de transportes, as indústrias estão montando as mercadorias cada vez mais de uma forma acabada, estão se adaptando a isso. Tem a mudança na forma de consumo, a escassez de containers e uma nova forma de logística internacional. As empresas vão buscar alternativas de logística para fazer a importação”, finaliza.