Essa é a música “Dois”, do cantor brasileiro Paulo Ricardo, vocalista da banda RPM, e fez algum sucesso no Brasil lá pelo final dos anos 90. Não sou um fã do cantor, mas penso que essa música, especial as duas estrofes abaixo ajudam a explicar o que se passou com o mercado nessa semana.
“De repente as coisas mudam de lugar
E quem perdeu pode ganhar”
Deixe-me discorrer sobre.
O que vimos nos últimos dias no mercado foi uma mudança frente aquilo que foi realidade durante o 1S22. De repente as coisas mudaram de lugar e aquilo que foi realidade até aqui mudou.
Começando pelo índice dólar abaixo. Apesar da forte valorização no ano, nas últimas duas semanas a moeda americana perde valor ante uma cesta de moedas medido pelo índice DXY.

O ouro, que eu chamei atenção no post da semana passada, ainda acumula perdas no ano, mas nos últimos dias ensaia uma recuperação.
A volatilidade segue elevada quando consideramos patamares históricos, mas arrefeceu mais recentemente.
O Índice de Volatilidade CBOE® (Índice® VIX®) é uma das expectativas de mercado da volatilidade a curto prazo transmitidas pelos preços de opção do índice de ações S&P 500
E quando olhamos a foto do S&P 500, comparando performances nos últimos 30 dias e no ano, dá para ver que vimos alguma mudança, não é mesmo?
Finviz – Últimos 30 dias (28/06/2022 – 28/07/2022)
Tenha em mente que as pessoas físicas não podem investir diretamente em qualquer índice. O desempenho passado pode não ser indicativo de resultados futuros.
Finviz – 2022
Tenha em mente que as pessoas físicas não podem investir diretamente em qualquer índice. O desempenho passado pode não ser indicativo de resultados futuros.
E está aí: “De repente as coisas mudam de lugar e quem perdeu pode ganhar.”
O QUE MUDOU?
“E me disse decidida, saia da minha vida
Que aquilo era loucura, era absurdo
E mais uma vez você ligou
Dias depois, me procurou.”
Da mesma forma que a protagonista da canção, o mercado muda de opinião toda hora. O principal vetor dessa mudança pode ter sido a percepção de que inevitavelmente vamos viver uma recessão, ou talvez já estejamos em recessão. E junto dessa percepção, a relativização de uma política monetária restritiva ad aeternum, que ganhou força mesmo após o aumento de juros anunciado essa semana pelo presidente do FED Jerome Powell. Aqui cabe um parêntese, o banco central americano decidiu por elevar a taxa referencial de juros em 0,75 pp. Para um intervalo entre 2,25% e 2,50% a.a. Esse evento foi amplamente esperado pelo mercado, que aguardava a coletiva de imprensa para mais pistas acerca dos próximos movimentos. Aqui nessa reportagem da CNBC você encontra um resumo completo, mas em suma podemos destacar:
• O FED segue preocupado e atento a inflação;
• O presidente do FED reforçou a ideia de novos aumentos nas próximas reuniões;
• O FED quer ver mais dados que reforcem que a economia desacelerou e desafogou mercado de trabalho para daí sim cogitar mudanças de direcionamento na política monetária.
Esses pontos não mudam em nada o que víamos até então. Mas o que mudou foi que o FED sinaliza em um statement que já observou a desaceleração de indicadores econômicos. E na entrevista, Powell comenta que a atual taxa de juros não estaria muito longe de uma chamada taxa neutra. Ele ainda deixa o cenário aberto para novos aumentos de juros na reunião de setembro, mas condicionado a leitura dos indicadores econômicos até lá.
Esses pontos citados acima, aliados aos indicadores que mostram fraqueza da economia, podem explicar a queda dos juros – vide gráfico abaixo.
E para fins de ilustração e para não deixar passar batido, o dado de PIB divulgado essa semana surpreendeu negativamente e mostrou que os EUA se encontram hoje em uma recessão técnica (com mais de 2 trimestres de queda de PIB).
QUEM PERDEU PODE GANHAR?
E daria para citar vários outros dados econômicos que indicam o mesmo, ou seja, a economia está desacelerando. Entramos então em uma dinâmica onde os dados ruins geram a percepção de uma política monetária menos restritiva em um futuro mais próximo e isso, por sua vez, movimenta essa dinâmica de mudança recente. Os dados ruins da economia têm pode ter funcionado como melodia para que, de repente, as coisas mudem de lugar e quem perdeu passe a ganhar, tal qual vimos nos últimos dias – e como mostrei mais acima na figura do mapa do S&P em sua performance nos últimos 30 dias.
“Com a voz suave, quase que formal
E disse que não era bem assim
Não necessariamente o fim”
Mas é sempre importante lembrar ao leitor que nada é garantido no mercado de renda variável. Uma desaceleração ou contração de atividade tem impactos nos lucros e nas margens das empresas e isso não pode ser desprezado. O gráfico abaixo traz a relação entre atividade e lucratividade das empresas – a linha azul clara representa o PMI da indústria e na linha escura o crescimento dos lucros anual das empresas do S&P500.
O índice de manufatura do ISM é um indicador mensal da atividade econômica dos EUA com base em uma pesquisa de gerentes de compras em mais de 300 empresas de manufatura. É considerado um indicador-chave do estado da economia dos EUA.
O desempenho passado pode não ser indicativo de resultados futuros.
Não quero ser enfadonho então convido todos para live de cenário macro, no nosso canal de YouTube. Nela vamos falar do perfil global de recitas das empresas do S&P, queda de margens, sazonalidade da bolsa, entre outros vários fatores. Não percam!
Calendário para a semana
Para acabar, seguimos vendo uma safra intensa de resultados. Na semana que vem conseguiremos fazer um balanço do que foi a safra de resultados até aqui.
Era isso pessoal. Me sigam nas redes sociais: @willcastroalves, no Twitter ou Instagram.
Aquele abraço!
William Castro Alves