De volta ao batente com as mesmas incertezas

O mercado está nesse vai-e-vem e deve ficar assim até que os sinais de que o ciclo de alta de juros chegou ao fim fiquem mais claros

Férias servem para quebrarmos o ritmo (alucinante, por vezes) das nossas rotinas.

Os últimos dois Diários de Bordo foram escritos pelo Kiki, enquanto eu aproveitava alguns dias para fazer essa pausa. Agora é ele que está fora, indo visitar algumas faculdades para o filho mais velho.

Enquanto meus filhos inauguravam a fase de viagens e férias com amigos, eu, a Silvia e as minhas enteadas fomos visitar os Lençóis Maranhenses.

Para quem nunca ouviu falar, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é uma área protegida de aprox. 1.550 km² na costa atlântica norte do Brasil. Para você ter uma ideia do tamanho, daria para colocar a cidade de São Paulo inteira dentro dele. Ou mais de 150 mil campos de futebol do tamanho do Maracanã!

É conhecido por sua vasta paisagem desértica de grandes dunas de areia branca e pelas lagoas sazonais de água da chuva (são mais de 36 mil!).

O parque tem sua localização no Cerrado, mas por apresentar forte influência da Amazônia e Caatinga, abriga diversos ecossistemas, como o manguezal, a restinga e um campo de dunas.

Visitamos o parque por três “portas” ou cidades diferentes: Atins, Barreirinhas e Santo Amaro. Acredite ou não, cada uma oferece uma experiência diferente e uma oportunidade única de interagir com as comunidades da região e de conhecer provavelmente uma das mais belas obras da natureza, no mundo todo.

E funcionou! Apesar da intensidade dos passeios e dos desafios de férias com recém-adolescentes, consegui espairecer e me desligar (um pouco…) do mercado.

Fica aqui minha dica: coloque esse destino na sua lista de desejos! Você não vai se arrepender! Ah, mas anota aí, a melhor época para visitar Lençóis é entre maio e julho, por conta das chuvas que enchem as lagoas.

Bom, de volta ao batente e às mesmas discussões das últimas semanas, com analistas de todos os cantos opinando sobre a capacidade dos bancos centrais de frear a inflação que segue batendo recordes, sem exagerar na dose do remédio (principalmente juros altos) e condenar as economias a entrarem em recessão.

A maioria dos analistas já não discute se teremos uma recessão nos Estados Unidos, a dúvida agora é quando e com que intensidade.

Ontem, quarta-feira (27) à tarde, com voto unânime dos seus 12 membros, o banco central americano subiu os juros em 0,75%, levando os juros para o intervalo de 2,25%-2,5%. Lá a inflação é a mais alta dos últimos 40 anos!

Na divulgação do aumento, as mesmas justificativas: apesar de alguns sinais de desaceleração na economia, desemprego segue baixo e a inflação segue alta, pressionada por desequilíbrios na relação de oferta e demanda causados pela pandemia e alta nos preços de energia e alimentos, piorados com a guerra na Ucrânia.

Destaque também para o banco central europeu que subiu os juros por lá em 0,50%, na semana passada, juntando-se (ainda que tardiamente) ao monobloco dos bancos centrais mundiais.

Por aqui, a decisão do Copom é só na semana que vem. A ver.

De resto, medo da China que flerta em sair das restrições da Covid e enfrenta grandes desafios, particularmente no mercado imobiliário, responsável por 25% do PIB chinês.

De volta aos mercados, a dúvida é: os ativos estão baratos nos preços atuais? A resposta parece ser sim, mas nada garante que não possam ficar ainda mais baratos.

Explico.

Vou começar pela Renda Fixa. No início do ano você poderia ter comprado um CDB pré-fixado de 5 anos pagando 13%. Hoje você pode comprar esse mesmo CDB (mesmo emissor, ou seja, mesmo risco de crédito) pagando mais de 16% ao ano.

Um investidor que comprou o CDB no início do ano está “tranquilo”. Todos os dias em que ele olhou a carteira dele, em qualquer banco ou plataforma do país, viu o CDB “comportadinho”, prometendo os mesmos 13%. Sem ninguém o chateando ao mostrar os efeitos do custo de oportunidade (a tal da marcação a mercado que será obrigatória para todo o mercado a partir de janeiro do ano que vem).

Se alguém lhe mostrasse esse impacto, esse investidor veria uma queda de 17% na sua posição. Se tivesse investido R$ 10 mil no início do ano, estaria agora só com R$ 8.300. O mesmo teria acontecido com um investidor que tivesse comprado uma NTN-B 2050, no início do ano, pagando IPCA+5,47%. Hoje ela paga IPCA+6,33%. O investimento do início do ano estaria caindo perto de 10% até hoje.

Usei esses exemplos para dizer que, sim, as taxas de Renda Fixa abriram (aumentaram) muito e estão atraentes. Mas podem ficar ainda mais. Parece que estamos chegando perto (ou talvez já estejamos nele) do ponto ótimo para aproveitar essas oportunidades antes que o mercado comece a precificar quedas futuras nas taxas e as curvas de juros “fechem”.

Quando o assunto é ações, a conversa tem 2 partes. Existe um certo consenso no mercado de que já passamos pela primeira parte, a fase da reprecificação dos ativos de risco por conta do aumento dos juros. Imediatamente o preço das ações é descontado com base nesse juro mais alto. O múltiplo de lucro pelo qual as empresas são negociadas é afetado.

Mas já está barato o suficiente ou ainda cai mais? Para essa pergunta ainda não há consenso porque aí entra a segunda parte. A fase do ajuste nos lucros esperados das empresas por conta da recessão que está por vir.

Por isso, mesmo com a relação preço / lucro das ações brasileiras estando no menor nível deste século (abaixo de 5x), não dá para dizer que o preço das ações não vá cair mais. Porque, apesar do ajuste no múltiplo já ter acontecido, o ajuste no lucro ainda está por vir…

É por isso que o mercado está nesse vai-e-vem e deve ficar assim até que os sinais de que o ciclo de alta de juros chegou ao fim fiquem mais claros.

A reação positiva de todos os ativos de risco ao comunicado do Fed após a alta de juros, mostrando que a febre (inflação) da economia americana já parece estar cedendo aos efeitos do remédio (alta de juros), pode ser um bom indício de que estamos chegando perto.

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