Olá. Aqui é o Kiki, novamente assumindo o Diário de Bordo. O Jojo está viajando, em merecidas férias. Na verdade, espairecer um pouco parece ser uma boa ideia com o mercado atual.
Sei que o Jojo falou de mercado no último DB, mas, na atual conjuntura, também gostaria de falar um pouco! Estamos passando por alguns meses desanimadores. A maioria dos ativos globais caem fortemente, no ano. Bem no estilo ”nenhum lugar para se esconder”.
Os ativos utilizados como “proteções” nas carteiras não funcionaram. No exterior, as posições em Ações e Renda Fixa caíram fortemente no primeiro semestre, algo que não acontecia desde a Grande Depressão dos anos 30. Aqui no Brasil, a combinação também não funcionou. O Ouro (em dólares) caiu no semestre e as Criptomoedas desmoronaram, perdendo de vez a possibilidade de serem consideradas um ativo descorrelacionado.
Consequentemente, os resultados no ano foram duros: carteiras com rentabilidade bem negativa. O mercado se estabilizou um pouco, nesse começo de julho, em termos de preço, mas o sentimento, tanto local quanto lá fora, continua ruim. Nesta quarta saiu mais um dado ruim de inflação nos EUA, acima do esperado, e elevando os juros nos últimos 12 meses para 9,1%.
Mas o que fazer neste momento tão negativo?
Dois conselhos são essenciais.
O primeiro é verificar se as perdas da carteira estavam dentro do esperado em um cenário de stress. Isto é, se o perfil de risco de seus investimentos está condizente com sua personalidade (suitability). Em 2020 e 2021, muitas pessoas aumentaram o risco em suas carteiras quando os juros estavam baixos. Suitability é muito importante: se o risco da carteira não estiver sincronizado com o que você aguenta, será necessário ajustar sua carteira para um patamar mais conservador.
O segundo conselho é olhar para a frente e não deixar os resultados passados influenciarem a sua alocação futura. Existem diversos estudos de finanças comportamentais sobre como atrapalham os erros cognitivos (como análise em retrospectiva) e os vieses cognitivos (como aversão a perdas).
E olhando para a frente, com tudo teoricamente “barato”, onde podemos nos posicionar para o futuro?
Os títulos longos indexados à inflação pagam 6% de juros reais (inflação + 6%) e a Bolsa é negociada a um P/L abaixo de 6, um número historicamente baixíssimo (o P/L mede, em anos, o tempo no qual você conseguiria seu investimento de volta, considerando-se apenas o lucro da empresa).
Ambas são excelentes opções de rentabilidade para os próximos anos. Entretanto, o “timing” de entrada é incerto. Pode piorar antes de melhorar. Os fundos multimercados mais ágeis ainda esperam o melhor momento, dadas as incertezas correntes, principalmente com o risco fiscal brasileiro.
Mas o investidor individual, pensando no longo prazo, já deve se posicionar. Muitas vezes o mercado antecipa o movimento e não podemos comparar a agilidade de um hedge fund e de uma pessoa física. Se o preço está bom, compre.
É fácil desanimar. Um dia desses estava discutindo com o Francisco, nosso estrategista-chefe, um movimento do dólar que não estava fazendo sentido. Ele me disse, brincando, que estava na hora de pegar a viola e tocar uma música, já que não estávamos entendendo nada.
Brincadeiras à parte, é preciso bastante sangue-frio para navegar um mercado beirando a pânico, muitas vezes com movimentos bem irracionais. O mercado deixa de ser eficiente e os fundamentos são deixados de lado.
Mas é em momentos como esse que alguém com visão de longo prazo consegue se posicionar com preços bem baixos e, consequentemente, com retornos esperados altos. Aí é só escolher o seu veneno. É claro, sempre respeitando seu perfil de risco.
Com o mesmo Francisco, dessa vez estimulado por uma pergunta de Bruno Mérola, responsável pelo relatório dos Melhores Fundos da Empiricus Research, conversei um pouco sobre as crises que passamos em nossas respectivas carreiras. Cheguei à conclusão de que a atual crise não apresenta risco de ruptura, como foi o caso nas piores crises que passei: 2002 (a possibilidade do Brasil quebrar) ou 2008 (os EUA quebrarem).
Mas, pelo lado do investidor, vejo um problema maior. A evolução do mercado e a baixa taxa de juros fez com que tivéssemos muito mais investidores em ativos de risco, hoje, do que naquela época. Infelizmente, temos mais dor, hoje.



