Anos atrás, um amigo aguardava o voo na sala de embarque do aeroporto de Confins (MG) quando notou uma idosa que não parava de encará-lo. “Deve estar me confundindo com um conhecido”, pensou. Não demorou para ela se aproximar e disparar pergunta em forma de disparate: “Você é alguém?”. A tal estranha apontava ainda uma câmera de celular ligada.
Caso fosse eu na cena, responderia à indagação com sarcasmo: “Lamento, minha senhora. Meu nome é ninguém”. Mas, surpreendido e constrangido com a situação, o não-alguém apenas decepcionou àquela que o abordou, murmurando singelo “não”. Ela evadiu-se logo do local sem sequer pedir escusas. É. Com tanta celebridade instantânea ao redor, o ridículo abunda.
O amigo em questão é um valioso cantor de Itabirito (MG), com vasta obra musical e parcerias com grandes gênios da MPB. Ele não tem toda a exposição que merece, mas quase lhe pediram para posar numa foto e dar autógrafo só por se parecer, sabe lá, com um ex-BBB ou um personagem vivo de meme. Trago o episódio para propor nova reflexão neste espaço.
A dominante cultura urbana e digital dos tempos atuais estaria servindo de uma peneira às avessas para os verdadeiros talentos? Vamos nos permitir ser convertidos em passivos espectadores da idiossincrasia alheia e, ainda, estimular outros a serem exibicionistas compulsivos? Frugalidade pode ser um valor a ser cultivado. Mas futilidade sempre vai corroer personalidades.
Quando éramos garotos, nossos pais cobravam da gente a mais absoluta dedicação aos estudos e ao trabalho para sermos “alguém na vida”. Admito que a mesma cobrança continua sendo feita às novas gerações, embora de forma menos ostensiva, apesar de a competição profissional e de a busca por um “lugar no mundo” terem adquirido contornos mais dramáticos.
O que não mudou é que somos todos, de um jeito ou de outro, agentes da História, mesmo quando nada fazemos por ela. E somos donos do próprio nariz até quando preferindo viver às custas de terceiros. O próximo, por sua vez, pode ser essencial à nossa existência, ainda que lhe neguemos “bons-dias”. Cada indivíduo é mais que alguém na vida. É um mundo a sondar.
