William Castro Alves: Um balanço dos resultados das empresas americanas no 2º trimestre

Período vai ficar marcado como o de maior crescimento de receita desde 2008, segundo a FactSet

Por William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities

Aproveitando que a safra de balanços dos EUA se encaminha para o final – com o resultado da Dollar General na quinta (26), sobraram apenas 10 empresas do S&P que ainda não divulgaram resultados –, cabe aqui fazer um balanço dos balanços, com o perdão da repetição.

Em linhas gerais, podemos dizer que o segundo trimestre de 2021 mostrou o auge da recuperação da economia americana após o impacto da covid em 2020. Os itens abaixo nos dão uma ideia da pujança dos resultados deste segundo trimestre de 2021, quando olhamos o S&P 500 e comparamos ao mesmo trimestre do ano passado:

  • As receitas cresceram ~26%;
  • Os lucros estão crescendo ~92%;
  • Cerca de 87% das empresas bateram estimativas de receita;
  • Cerca de 88% das empresas bateram estimativas de lucro;
  • Além disso, 52% das empresas elevaram suas projeções para o próximo trimestre.

Vou mostrar alguns gráficos que trazem um pouco de contexto e perspectiva histórica, e ajudam a ver como, de fato, foi um trimestre diferenciado.

Começando pelo percentual de empresas que bateram as estimativas dos analistas a respeito de suas receitas:

O segundo trimestre vai ficar marcado como o de maior crescimento de receita desde 2008, segundo a FactSet. O gráfico abaixo deixa isso claro.

Em termos setoriais, quem mais surpreendeu foi o setor de energia. No caso, me refiro essencialmente às empresas ligadas a petróleo e gás.  

E o gráfico abaixo compara os setores das empresas que mais surpreenderam os analistas. Das empresas de saúde, 97% dos resultados bateram as estimativas do mercado. Em contrapartida, no segmento de materials (materiais básicos) tivemos o maior volume de resultados abaixo do esperado, 33%.

A despeito de todos os receios com inflação, as margens de lucros das empresas do S&P 500 seguem próximas às máximas históricas.

E as empresas estão com o maior nível de caixa e ativos líquidos dos últimos anos.

Em nossa próxima live, o Conexão Avenue do dia 30/08, vamos falar um pouco mais sobre os resultados das empresas americanas. Todos estão convidados! Será no canal de YouTube da Avenue, às 19h.

ALL TIME HIGHS

De posse de tudo isso que apresentei, não é de surpreender que a bolsa americana tenha testado novas máximas nas últimas semanas, sendo que o número de dias batendo novas máximas também atingiu recorde. Foram 50 new highs em 2021 (vide gráfico abaixo), mesmo com os diversos riscos e incertezas levantados anteriormente.

Os fortes resultados têm feito com que alguns bancos revisem suas estimativas para o índice americano. Recentemente, o UBS divulgou um relatório revisando seu target price do S&P 500 para 2022, projetando que ele possa alcançar 5.000 pontos – foto da esquerda. O Goldman Sachs é um pouco mais conservador e projeta 4.900 – figura da direita.

grafico 8 balanço

MAS NEM TUDO SÃO FLORES… QUAIS OS RISCOS PARA O MERCADO?

Apesar dos números e perspectivas positivas das empresas, sempre existem riscos rondando o mercado. Cito aqui 3:

  • Tapering

Hoje tivemos o grande evento da semana, quando Jerome Powell discursou no simpósio de Jackson Hole. Sua fala acabou por acalmar o mercado. O Fed está preocupado com o nível de emprego da economia (ainda com bastante espaço para melhorar), segue vendo a inflação como temporária e reafirmou o risco que seria adotar uma política mais agressiva de corte de estímulos em um momento em que a economia se recupera.

Diante disso, entendo que o FED reafirmou seu o compromisso com uma política de retirada de estímulos de forma gradual. O mercado deve passar agora a especular qual vai ser a redução mensal do seu programa de compra de títulos (tapering), hoje em US$120 bilhões. Entendo que o risco oriundo do tapering já esteja precificado no mercado, mas obviamente uma retirada de estímulos mais rápida é sempre um risco.

  • Desaceleração

Passado o pico da atividade econômica, que aconteceu ao final do segundo trimestre, é normal que a economia americana desacelere, tal qual vemos no gráfico abaixo, que demonstra diversos indicadores inflexionando para baixo. Entendo que agora o mercado passará a medir e inferir a magnitude dessa desaceleração.

grafico 9 balanço
Fonte    
  • Afeganistão

Nesta semana, o mercado acompanhou de perto os acontecimentos no Afeganistão, o que ajudou a elevar o sentimento de aversão a risco. O Pentágono confirmou que 12 militares americanos morreram e 15 ficaram feridos após duas explosões ocorridas fora do aeroporto de Cabul.

Não há como precisar o impacto disso no mercado, mas entendo que, quando há política em evidência, acaba não sendo positivo para o mercado. Entendo também que alguns segmentos da sociedade americana irão cobrar uma resposta do governo americano. A questão é que uma escalada de tensões sociais não é boa para o mercado. Portanto, esse é um risco potencial.

Era isso pessoal, aquele abraço!

WILLIAM CASTRO ALVES

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