Jojo Wachsmann: Tá na hora de comprar renda fixa e fugir da Bolsa?

Você pode (e deve) aproveitar algumas oportunidades na renda fixa. Porém, não acho que deva fugir da renda variável

Por Jojo Wachsmann, sócio-fundador e CIO da Vitreo

Jojo, o que está acontecendo com o mercado?

Por que os meus investimentos estão caindo?

Tá na hora de comprar renda fixa e fugir da Bolsa?

Indiscutivelmente, essas têm sido as perguntas que mais tenho recebido neste mês de agosto.

E não é para menos. Estamos experimentando momentos de grande volatilidade em diversos mercados e isso tem consequências diretas no resultado dos fundos.

Vou dedicar o Diário de Bordo de hoje para tentar responder de forma objetiva a essas perguntas. Esta semana postei um vídeo no meu Instagram também sobre isso (algumas pessoas acharam que eu gravei com a cara muito perto do celular… rsrs).

Então vamos lá. Vou dividir o texto em 4 blocos: (1) Estados Unidos, (2) China, (3) Brasil e (4) O que eu faço? A ideia é trazer um resumo de como estou vendo o cenário de investimentos. Muitas ideias foram emprestadas de pessoas que eu respeito muito.

1 – Biden e o dilema da recuperação da economia

A economia americana ainda é o principal motor da economia global. E foi uma das primeiras, senão a primeira, a se recuperar da pandemia no ano passado.

Parte da receita para sair da crise veio da política monetária expansionista. A mesma política que tirou os EUA da crise global de 2008 e vinha sendo receitada ao longo da última década (com juros baixíssimos, injeção de liquidez e compra de ativos por parte do banco central e Tesouro), e que estava vendo seus últimos capítulos no final de 2019, foi religada em força máxima.

Como tudo na vida, a recuperação econômica desejada aconteceu, mas veio com um brinde amargo: uma incômoda inflação (de curto prazo?) causada pela falta de oferta de produtos e serviços.

Além disso, o próprio Fed (o banco central americano) tem sido bastante explícito em sua intenção de normalizar a política monetária descrita acima. O primeiro passo seria a redução no ritmo da compra de ativos (conhecido como “tapering”). Ao reduzir a injeção de liquidez na economia, o Fed quer também equilibrar o contraste entre a ajuda à economia com a pressão sobre a classe mais baixa, que sofre mais com o impacto que a política expansionista tem, principalmente no preço das hipotecas e nos aluguéis. Um dedo de política social.

(O João Piccioni foi quem me explicou isso nos minutos iniciais da live “Seleção Empiricus” desta semana. Recomendo que você assista. Max, Kiki, João e eu falamos justamente sobre o que fazer em meio a essa turbulência.)

Tapering, inflação, se você esticar esta linha, é capaz de enxergar uma alta de juros lá na frente. E o mercado já espera que isso aconteça no final do ano que vem ou no início de 2023.

Mas a história não para por aí.

Os sinais mais recentes na economia americana são de algum arrefecimento no ritmo da recuperação. Talvez explicado pela preocupação com a variante Delta do coronavírus, ou pelo próprio ajusta da volta à normalidade, o fato é que a dinâmica do consumo já começa a mudar (vendas no varejo mais fracas).

Com essa mudança, os preços de algumas commodities (madeira, cobre, petróleo, minério de ferro) estão mais fracos, mais próximos da média histórica.

Na Bolsa americana você pode ver isso tudo em um movimento de (des)rotação setorial, invertido em relação ao início do ano, com as big techs se recuperando frente às empresas dos setores tradicionais e small caps.

Deu para sentir a complicação dos vetores que contribuem para um cenário mais complicado? E olha que eu nem falei do pacote fiscal trilionário do presidente Biden com foco na recuperação da infraestrutura americana (pode sustentar o preço das commodities metálicas?), nem na confusão geopolítica com a saída dos EUA do Afeganistão.

2 – Xi Jinping e o sonhado capitalismo de Estado

O cenário não está menos confuso do outro lado do mundo, na outra turbina que sustenta a economia mundial.

De forma muito simplista, vejo a China também sob a ótica de um conflito.

O objetivo do presidente Xi Jinping, como líder máximo do partido que governa a China, parece claro: dar continuidade ao projeto que transformou o país ao longo das últimas décadas.

A receita desse longevo milagre econômico está na adoção de um capitalismo de Estado, guiado por Xi Jinping nos últimos dez anos.

Os resultados são claros: mais de 600 bilionários, 4 dos 10 maiores centros financeiros do mundo e mais empresas chinesas do que americanas na lista da Fortune 500 do ano passado.

Impulsionado por um crescimento anual de aproximadamente 13% nos últimos 20 anos, a China não só se tornou uma potência mundial, com um PIB de US$ 15 trilhões, mas conseguiu tirar mais de 750 milhões de chineses da pobreza. Este parece ser o objetivo final: não apenas ser a maior economia do mundo, mas também um país rico.

(A matéria da revista Exame de junho deste ano traz um bom conteúdo sobre China e os 100 anos do PCC)

Tudo parece lindo, um sonho entre os extremos do capitalismo e do socialismo. Ué, mas então cadê o problema? Consigo ver dois com bastante clareza.

O primeiro problema é que a China já não vem crescendo no mesmo ritmo nos últimos anos. Mesmo crescendo mais que a maioria dos países do mundo, um crescimento menor coloca em risco a estratégia social. Além disso, menor crescimento chinês significa que as commodities vão para baixo.

Além disso, nos últimos meses, o governo chinês vem mostrando os limites que tolera para a sua versão capitalista.

Um atrás do outro, diferentes setores da economia (tecnologia, educação, varejo, jogos online, bebidas, cosméticos…) têm experimentado o peso desse controle.

Os investidores do mundo ocidental reagem dando um passo para atrás, sem saber até onde podem confiar em uma economia com forte intervenção estatal. E as instituições de mercado aumentam também o escrutínio sobre as empresas chinesas.

Deu para sentir a complicação dos vetores que contribuem para um cenário mais intrincado? E olha que eu nem falei das questões sociais e políticas, como Taiwan, censura, o flerte com o Talibã no Afeganistão, a origem da Covid…

3 – Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada…

Depois de um passeio pelo mundo, chegamos no nosso quintal.

No artigo publicado no Brazil Journal na sexta-feira passada intitulado “Dados melhores, ativos que derretem. O que Brasília precisa fazer”, Mansueto Almeida, que esteve no Ministério da Fazenda entre 2016 e 2020 e hoje é economista-chefe do BTG, explica de forma simples a falta de sintonia entre as visões micro e macro para o Brasil.

Se você olhar para o lado micro, para os dados econômicos, vai ficar com vontade de comemorar. Olha só a lista abaixo e me fala se eu estou exagerando:

Crescimento esperado do PIB de 5,3% (era menos de 3% em março).

Déficit primário de 1,5% PIB (era 3% em março).

Endividamento do setor público 82% (expectativa anterior era 89%).

Vacinação em ritmo acelerado em todo o país e números de novos casos de Covid e mortes melhorando.

Resultados do segundo trimestre das empresas listadas na Bolsa em média acima do esperado.

Tá vendo… Parece tudo muito bom. Até o movimento de alta dos juros pelo Banco Central, ainda que tardio, deveria indicar um compromisso com o controle da inflação.

Porém, o que estamos vendo nos preços dos ativos não reflete bem isso.

A Bolsa caiu aproximadamente 11% do recorde de 130 mil até os 116 mil da semana passada. O dólar chegou a R$ 5,41 e, principalmente, a curva de juros indica que as taxas de juros permanecerão altas nos próximos anos.

Onde está o problema? Em Brasília.

As confusões palacianas e a mistura da discussão do aumento do Bolsa Família com o pagamento dos precatórios (sentenças judiciais) passaram um recado ruim para o mercado: o teto dos gastos estaria em risco e com ele toda a esperança de um retorno aos trilhos do controle do déficit fiscal.

Se o recado estiver errado (tomara!), nossos políticos precisam passar a mensagem correta. Só assim poderemos de fato comemorar com uma curva de juros que mostre queda, anos à frente, depois de uma alta pontual para segurar a inflação, um câmbio mais perto dos R$ 5 e uma Bolsa buscando novos recordes.

Deu para sentir a profusão de vetores que contribuem para um cenário mais complicado? E olha que eu nem falei de eleições, disputa entre Executivo e Judiciário, etc.

4 – O que eu faço?

Chegamos na parte quente! Vou direto para a primeira pergunta:

Tá na hora de comprar renda fixa e fugir da Bolsa?

Olha só, se você está otimista ou construtivo como eu, se leu e se animou com os dados micro na parte (3) e acha que no Brasil a gente flerta com o abismo, mas não cai, a minha sugestão é que você pode (e deve) aproveitar algumas oportunidades na renda fixa, especialmente os papéis atrelados à inflação, porque a curva de juros está mais alta do que ela deveria estar. Não a parte curta, mas a parte longa.

(Aliás, aqui cabe um parêntese: recomendo que você não perca tempo, pois a Semana da Renda Fixa, criada pelo nosso head de renda fixa, o Mallet, está acabando. Mais de 1.200 clientes já aproveitaram as oportunidades especiais que ele trouxe. Clique aqui para conferir as ofertas.)

Porém, eu não acho que você deva fugir da renda variável. Os resultados das empresas estão muito bons, a recuperação da economia está de fato em andamento e os preços das ações parecem muito baratos!

Não sou só eu que estou falando. Vários gestores estão falando (já ouviu o RadioCash desta semana com o Werner Roger, gestor da Trígono?). A turma da Empiricus está falando. O mercado está falando. Os múltiplos da Bolsa (com ou sem Petro e Vale) estão em níveis de liquidação. Claro que é para o médio, longo prazo, mas eu não sairia agora. Talvez até aumentasse Bolsa.

Agora, se você está menos construtivo ou mais pessimista, ajuste sua posição de Bolsa e corra para a renda fixa, mas, nesse caso, só para a parte pós-fixada, porque os juros num cenário ruim ainda podem subir e a boa taxa prefixada de hoje pode ficar meio azeda amanhã.

Na renda variável, nosso destaque segue sendo o Oportunidades de Uma Vida, que, ainda assim, perde mais que o Ibovespa neste mês. E vem novidade por aí. A Larissa Quaresma, analista que trabalha com o Felipe Miranda, lançou uma carteira de ações com oportunidades ESG. A gente está de olho e você sabe o que isso significa. Pode aguardar!

Respondida a primeira pergunta, vamos ao complemento. Se você já me acompanha nos outros Diários de Bordo, já sabe que eu nunca me esqueço da palavra mágica, o meu mantra: diversificação.

O cenário está muito incerto. Lá fora e aqui. Está difícil de cravar algumas coisas, mas dá para ver o que funciona (e o que não funciona).

Não dá para ter só Brasil na sua carteira. Porque mesmo quando os fundamentos melhoram, há surpresas aqui ou lá fora que atrapalham um caminho livre para altas. Diversificação internacional é importante.

Estamos trazendo uma versão do nosso Money Rider Hedge Fund acessível para o público geral já no mês que vem (olha o spoiler).

Estamos colocando uma nova aposta no nosso Tech Select. Estou confiante que essa empresa, que estou chamando de a “Big Tech dos Bastidores”, vai complementar nossa estratégia. Se quiser saber mais, inscreva-se aqui.

O João Piccioni está apimentando a receita do MAM e o nosso Franklin W-ESG bate o S&P 500 no ano!

Pô, mas e o Tech Ásia (ou o Tech Games)? Releia comigo a parte (2) acima. Não dá para fugir. A pressão regulatória do governo chinês afugentou investidores e derrubou as cotações. O fundo é específico, tem um mandato claro, não tem como não estar investido. É hora de sair? Eu honestamente acho que não. Como disse Scott Galloway na conclusão do do seu artigo “Seeing red” , “This is a rare moment when beachfront property is going on sale”. Muitas das ações dessas empresas parecem estar em promoção. E essa é também a opinião de vários gestores especializados. A China vai continuar crescendo e precisa dessas empresas para seguir com seu projeto.

Pô, mas e o Canabidiol (ou o Cannabis Ativo)? Os gatilhos que podem representar um novo ciclo de alta nas ações do setor estão mais vivos do que nunca. O Safe Banking Act está no Senado desde abril. Em julho, o senador democrata Chuck Schumer, líder da maioria, colocou mais uma proposta na mesa, o Cannabis Administration and Opportunity Act (Caoa), que propõe a remoção da maconha da lista do Controlled Substances Act e sua legalização em nível federal. As ações das empresas do setor, que subiram fortemente em fevereiro, cederam nos meses seguintes e hoje negociam nos patamares do início do ano. Eu não sairia agora.

Criptomoedas voltaram a voar, literalmente, com o Bitcoin subindo quase 70% desde as mínimas em julho. Difícil imaginar mais emoção que isso. O criptoativo subiu mais de 100% até meados de abril, depois caiu 55% nos meses seguintes até a recuperação no último mês. Vale ter na sua carteira? Sim. Quanto? Pouco, bem pouco. Fiz uma live com o André Franco, analista de cripto da Empiricus. Se você não assistiu, dá uma olhada.

Bom, acho que é isso.

Me alonguei um pouco, mas espero ter ajudado você a entender o cenário atual, no qual os investimentos estão balançando mais que o costume e, principalmente, por tentar te ajudar em como ajustar os seus investimentos.

Leia o Diário de Bordo na íntegra:  clique aqui. 

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