Sérgio Bivar: A mercadoria dinheiro

A bicicleta econômica passou a andar sem rodinhas, sem ter de se apoiar, e cada novo desequilíbrio é superado com novas pedaladas

Por Sérgio Bivar

A história do dinheiro começa no Antigo Egito e, ao longo dos séculos, permeia nossas vidas. Na era moderna, o dinheiro foi muito além da sua função original, como facilitador, meio de troca e reserva de valor. Em vez de marcharmos para um sistema global de trocas, vimos o dinheiro demarcando novas fronteiras. As moedas são “divisas”, e os bancos centrais – instituições que se consolidaram no pós-guerra –, o grande timão da força produtiva e do bem-estar social.

No século 19, com a ascensão dos estados-nação e o industrialismo avançado, o monetarismo se tornou central na história dos povos. Entender as grandes guerras sem o pano de fundo econômico é como assistir a um show de marionetes sem saber que existem pessoas por trás. Um livro que conta bem a história do Terceiro Reich, sob a perspectiva econômica, é “O Preço da Destruição”, de Adam Tooze. É preciso pontuar que a grande depressão de 1930, com o crash da Bolsa Americana, no ano anterior, foi um dos detonadores da Segunda Grande Guerra.

O desarranjo global veio acompanhado também do fim do reinado hegemônico da Teoria Econômica Neoclássica, cuja origem remonta a 1776, com a “Riqueza das Nações”, de Adam Smith, e marca o protagonismo da macroeconomia, num debate que rende até aos dias atuais.

Respaldado pela grande depressão americana e pelos seus desdobramentos, John Maynard Keynes foi responsável por derrubar um dos pilares da ortodoxia neoclássica, o pressuposto de que a mão invisível (o livre mercado) ruma sempre ao equilíbrio e ao pleno emprego. Keynes enxergou que os ciclos econômicos (com suas recessões e depressões) fazem parte do capitalismo; contudo, podem ser atenuados pela ação estatal, impulsionando a rubrica do investimento e aumentando a circulação de moeda, mesmo gastando além da sua capacidade. Com isso, Keynes deu aos bancos centrais e às políticas monetárias uma relevância e poder de indução até então inimagináveis.

Apontar os problemas do capitalismo, entretanto, não era nenhuma novidade à época. No final do século 19, Karl Marx já havia teorizado o que seria um problema endógeno e insolúvel do sistema capitalista. A escatologia econômica de Marx anunciava que o colapso econômico viria de um excesso de produção acompanhado pelo subconsumo. A causa do desarranjo seria a de que os trabalhadores, cada vez mais explorados pelos capitalistas, não teriam dinheiro para comprar os próprios bens que produziam, combinando excesso de oferta com falta de demanda. Isso forneceria as bases para a revolução.

Ainda que as teorias de Marx e de Keynes mirem o desequilíbrio entre oferta e demanda sob a ótica do capital e do emprego, as similaridades acabam por aí. Isso porque Marx parte da premissa de que valor e custo se equiparam e o valor da mercadoria deve ser medido pelo tempo de trabalho despendido – o gasto de energia humana empregado em todos os seus níveis de produção. Ao propor uma paridade entre custo e valor (Wert), para Marx o lucro, a mais-valia, não é um excesso, mas a usurpação da hora trabalhada pelo capitalista.

É obvio que custo e valor não são a mesma coisa. Isso ficará evidente com as teorias marginalistas, que trazem noções de custo e utilidade marginal. O valor é relativo e está na percepção individual de cada um. O espaço da troca é o espaço das diferenças, no qual é possível se criar valor, não se tratando de um jogo de soma zero. Atestar o que hoje é consensual na economia permite que a teoria marxista resista apenas com seus anseios morais.

Diferentemente do autor de “O Capital”, as crises financeiras retratadas no modelo keynesiano decorrem da interrupção dos investimentos e da falta de liquidez, que causam um efeito em cascata na economia, como as corridas ao banco e a paralisação da atividade econômica. A resposta dada por Keynes a situações do tipo é simples: colocar mais capital na rua, criar capital – fiat lux.

Se há um tópico em que as teorias de Marx e de Keynes parecem poder dialogar é sobre um tema de grande estima para os marxistas: o fetichismo da mercadoria. Provavelmente inspirado na crítica de Feuerbach à religião, o tema do fetiche remonta ao bezerro que ia ser alçado à divindade pelos hebreus. Enquanto esperavam Moisés, os judeus, sem alimentos nem direção, derretem todas as moedas e joias que haviam trazido consigo para criar um bezerro de ouro. Ao regressar, Moisés deu fim aos novos esforços de idolatria e apresentou as leis dos dez mandamentos.

Fetichizar é dar status místico e simbólico a um objeto. Ao criticar a fetichização da mercadoria, Marx critica o universo das trocas alienadas, que ignoram a origem, o trabalho empregado e o “valor de uso”, em prol do “valor de troca”.

O dinheiro como mercadoria é um dos mais bem acabados produtos do processo de fetichização. O dinheiro é o meio que se fez fim. E é na própria concepção keynesiana que temos a materialização em sua dimensão quase sobrenatural. O dinheiro que o keynesianismo autoriza a circular, com as políticas monetárias anticíclicas, é criado do nada, não é respaldado por nada além dele mesmo, estando limitado apenas por seu potencial inflacionário – suas capacidades relativas, em detrimento de qualquer valor intrínseco.

O irônico de toda essa história é que são os progressistas de esquerda os que mais apoiam as políticas monetárias e fiscais, com gastos públicos elevados além da capacidade de pagamento dos governos. Talvez, com isso, acreditando que o Estado, por via dos gastos públicos, possa hackear o sistema capitalista e atuar pela redistribuição da riqueza, o que na prática não tem ocorrido.

Justiça seja feita, Marx não chegou a conhecer as teses dos marginalistas, que revolucionaram a teoria econômica. Restou ele subordinado a uma tradução errada e uma interpretação dogmatizada de David Ricardo. Provavelmente, Marx iria se surpreender com o alcance de sua teoria do fetiche e sua apoteose, na era Nixon, quando o dólar se emancipou do ouro e a moeda fiduciária, criada a partir do nada, atestou, de forma mais definitiva, a autonomia da mercadoria dinheiro.

O dinheiro, tal como conhecemos hoje, opera no universo da crença. A bicicleta econômica passou a andar sem rodinhas, sem ter de se apoiar, e cada novo desequilíbrio é superado com novas pedaladas. Não é preciso acreditar na gravidade para ela funcionar, mas compreendê-la abre um novo mundo de possibilidades, tanto para a ciência quanto para o misticismo.

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