Jojo Wachsmann: As duas faces do mercado financeiro

Em “The Wisdom of Finance”, Mihir Desai busca mostrar que existe uma profunda conexão entre finanças e moralidade

Por Jojo Wachsmann, sócio-fundador e CIO da Vitreo

Já comentei com você, mais de uma vez, que meu filho está enamorado do mercado financeiro e, à medida que os vestibulares no final do ano se aproximam, aumentam nossas conversas sobre o curso mais adequado (Economia parece estar levando vantagem sobre Engenharia). Também falamos sobre quais as vantagens e desvantagens de cada escola (FEA, Insper, GV…).

Nessas conversas, percebi que, em meio ao fascínio dele pelo mercado financeiro, existe uma certa sensação de receio com a toxicidade do mercado. Essa sensação de repulsa não é exclusiva dele.

Coincidentemente, uma cliente da minha esposa a procurou querendo repensar sua carreira, justamente por não sentir que seu propósito estaria alinhado à frieza das finanças.

Poderia ainda relacionar essa mesma sensação de frieza e repúdio à forma como muitas pessoas lidam com o dinheiro e seus investimentos. O Ocidente, ainda que apoiado pelo capitalismo, tem raízes culturais (bíblicas, quem sabe?) que talvez expliquem por que muitos tratam o dinheiro e a riqueza como pecado.

Frente a essa constatação, a leitura que escolhi para os dias de férias foi uma grata surpresa. Em 2017, ganhei o livro The Wisdom of Finance, autografado pelo autor Mihir Desai, professor de finanças e direito em Harvard, um presente de final de ano da gestora Harbor Spring Capital.

Logo na introdução o livro traz a seguinte proposta:

“A indústria financeira é amplamente considerada moralmente suspeita. Mesmo quem trabalha no mercado financeiro tende a separar sua vida pessoal da forma como avança em sua profissão. Mihir Desai argumenta que isso não apenas é um preconceito totalmente falso, mas é, também, prejudicial para quem trabalha com finanças e para todo o setor financeiro.”

O subtítulo do livro, “Descobrindo humanidade no mundo do risco e retorno”, indica o caminho. Mihir busca mostrar que existe uma profunda conexão entre finanças e moralidade. Usando exemplos e comparações com clássicos da literatura, passagens históricas, filósofos gregos, parábolas bíblicas, além de músicas e filmes, ele explica vários pilares do mundo das finanças de forma intuitiva e calorosa.

Logo no início, o autor usa uma parábola escrita por Joseph de la Vega, em Amsterdã, em 1688, na época áurea da Companhia das Índias Ocidentais, Confusion de Confusiones, em que, conversando com um comerciante e um filósofo, um acionista descreve as finanças da seguinte maneira:

“Realmente devo dizer que você é uma pessoa ignorante, amigo Greybeard, caso nada saiba sobre este assunto enigmático, que é, a uma só vez, o mais justo e o mais enganoso da Europa, o mais nobre e o mais infame do mundo, o mais elegante e o mais vulgar na face da Terra. É a quintessência da formação acadêmica e um modelo de fraudulência; é uma pedra-de-toque para o inteligente e uma pedra tumular para o audacioso, um tesouro de utilidade e uma fonte de desastre e, por fim, uma contrapartida de Sísifo, que nunca descansa, bem como Ixion, que está acorrentado a uma roda que gira perpetuamente”.

O pior e o melhor do mundo das finanças, coexistindo.

Eu poderia ficar aqui o dia todo contando sobre cada uma das histórias do livro; afinal, o autor fala de diversos assuntos, como seguros, diversificação, probabilidades, criação de valor, fusões e aquisições, falência e alavancagem, tudo isso em oito capítulos.

Mas, como não quero perder sua atenção em meio ao Diário de hoje, vou me concentrar em apenas algumas passagens do capítulo 5, No Romance Without Finance, ou seja, não há romance sem dinheiro. Nele, para explicar fusões e aquisições, Mihir traça comparações com o casamento.

Conta, por exemplo, histórias como a da estratégia da família Rothschild, que restringiu os casamentos entre os membros da família, no início do século XIX, de forma a manter o poder e riqueza concentrados. Estratégia que causa estranheza à primeira vista; porém, é muito parecida com a das famílias reais europeias, com seus casamentos que mais parecem fusões estratégicas do que histórias de amor.

Conta também sobre a parceria entre Henry Ford e Harvey Firestone, que, no início do século passado, fabricava os pneus dos primeiros modelos da recém-criada Ford Motors. A parceria durou o século inteiro, como um casamento inabalável. O divórcio só aconteceu na década de 1990, com a crise gerada pelos acidentes com o modelo SUV Ford Explorer. Em vez de juntas enfrentarem o problema, as empresas trocaram acusações.

A Firestone cancelou os contratos com a Ford em uma carta na qual dizia que “relacionamentos comerciais, assim como os pessoais, são construídos com base em confiança e respeito mútuo. Chegamos à conclusão de que não podemos mais fornecer pneus para a Ford, uma vez que a fundação básica da nossa relação foi seriamente afetada. Esta não é uma decisão fácil, depois de quase 100 anos de história”.

Parece ou não uma carta de amor de um coração partido? E para dar mais dramaticidade ao enredo, o chairman da Ford nessa época era justamente filho do casamento do bisneto de Henry Ford com a bisneta do Harvey Firestone!

Mas a minha passagem favorita do capítulo é a história do “fundo de dotes”. Em 1425, o governo de Florença na Itália criou o Monte dele doto. Uma estrutura interessante e inteligente que atendia o interesse das três partes envolvidas, um ganha-ganha-ganha.

Os pais de jovens meninas poderiam emprestar dinheiro para o governo a taxas de juros pré-fixadas por 10 anos, desde o aniversário de cinco anos até a maturidade de suas filhas, aos 15 anos. Os recursos só poderiam ser resgatados no ato do casamento da filha, e o pagamento iria diretamente para o noivo.

Assim, o noivo garantia o seu “pagamento” sem depender da boa vontade ou da saúde financeira do sogro, que tinha um fundo para acumular os recursos para o dote de sua filha, e, assim, a cidade podia financiar seu crescimento. Realmente, um triplo win-win!

Mais de 20 mil contas foram abertas ao longo de 100 anos (a cidade tinha 50 mil habitantes). Muitos historiadores consideram que o Monte delle doti foi o principal responsável pela força de Florença no século XV e pela manutenção da estabilidade social das famílias mais ricas, pois o sistema, de certa forma, inibia a ascensão social.

O livro é recheado de histórias interessantes como essas acima. Fica aqui a minha sugestão para quem quiser se aprofundar no assunto. Infelizmente ainda não existe versão em português do livro. E pode ter certeza, eu vou trazer outras histórias em futuros Diários de Bordo.

O livro já está na lista de leituras do meu filho, Michel. Espero que o ajude a ficar em paz com suas escolhas futuras.

Leia o Diário de Bordo na íntegra:  clique aqui. 

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