William Castro Alves: Juros mudando pelo mundo

O investidor tem uma janela de oportunidade para começar a dolarizar parte do seu patrimônio

Por William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities

Quem acompanha esta coluna sabe que vínhamos batendo na tecla de que a melhor forma de ganhar dinheiro com a inflação é simplesmente ignorando-a. E contrariamente a essa opinião, temos tido dados de inflação ao consumidor e produtor (CPI e PPI) sempre surpreendendo pela ponta positiva – tal qual o PPI divulgado na terça. Mas veja que o evento da semana passada era a decisão sobre os juros, pelo comitê de política monetária americano, o FOMC (se você não sabe o que é isso, assista esta live). Pois bem, o evento realmente trouxe novidades:

  1. O Banco Central americano, o Fed, reajustou para cima as expectativas de inflação nos EUA em 2021. Elevou a projeção de 2,4% para 3,4%; e para 2,1% em 2022;  
  1. Mas a inflação decorre também de um maior crescimento… A projeção para o PIB foi de 6,5% para 7,0%;  
  2. E, com uma inflação maior, tivemos mais dirigentes do Fed mudando de opinião. O gráfico abaixo compara o posicionamento dos membros do banco na reunião de março (à esquerda) e na de agora (à direita). Isso levou o mercado a reforçar a ideia de que os juros começarão a ser alterados nos EUA em 22.

Como sempre, no curtíssimo prazo o mercado reage… quase sempre de forma exagerada. Vou usar um gráfico como exemplo: o das treasuries de 10 anos. Sai o anúncio, e sua ata… vemos um salto no patamar de precificação dos juros de 10 anos, de cerca de 1.48% para 1.59%. Parece pouco, mas em se tratando de juros, assim como o gráfico mostra, não é nada desprezível.  

grafico juros
Fonte.  

Na sequência, temos aquele movimento em cascata de VIX pra cima (maior volatilidade e incerteza) e a bolsa cai… tudo em 5, 10 ou, como no gráfico abaixo, 15 minutos.  

Tudo loucura de curto prazo do mercado! Veja que 24 horas depois, os juros voltam, o Vix cede e o mercado de ações se acomoda.  

Por isso que sempre bato na tecla de que o investidor não pode querer mudar sua carteira a toda hora, que surge uma nova headline nos jornais e sites de mercado. O investidor deve lembrar que investir não é uma corrida de 100 metros, e sim uma maratona.  

JUROS MAIS ALTOS PODEM PESAR SOBRE O MERCADO DE AÇÕES?  

Pergunta boa, mas a resposta não me parece das mais simples. Então, diria que depende. A meu ver depende mais da velocidade do movimento de elevação de juros precificada na curva (no mercado) do que dos juros em si. Em pesquisa recente do Bank of America, investidores pontuaram o patamar de 2.5% como de risco para gerar maiores realizações no mercado de ações. Atualmente a curva de juros de 10 anos precifica 1.45%, ou seja, ainda estamos longe desse patamar.  

JURO MAIS ALTO NO BRASIL, DÓLAR PRA BAIXO?  

No Brasil, também tivemos a decisão unânime de elevação de juros. O Copom elevou a Selic para 4,25%, deixando espaço para maiores subidas no futuro.  

Nesse cenário, é possível, sim, que juros maiores vis-à-vis uma realidade de juros muito baixos pelo mundo atraia capital externo para o Brasil em busca desses rendimentos. Se isso for verdade, teríamos uma pressão favorável de valorização do real contra o dólar. Em outras palavras, a moeda americana ficaria mais barata para o brasileiro.  

Ela parece fazer sentido, mas vejo alguns problemas nessa tese:  

  1. Apesar desse aumento de juros, a realidade, tal qual já falei aqui, é a de que o investidor brasileiro está vendo seu poder de compra ser corroído ao investir em grande parte dos ativos de renda fixa disponíveis no mercado nacional. A inflação projetada pelo Boletim Focus para o fim de 2021 é de 5.82%; ou seja, esse é o valor mínimo de remuneração que você deveria buscar apenas para manter seu poder de compra! Essa inflação não só corrói o poder de compra do brasileiro como reduz o retorno real dos investimentos em títulos do país. Seguimos tendo uma realidade de juro real negativo (Selic atual de 4.5%, menos a inflação dos últimos 12 meses, de 8.06%, e temos um retorno real de -3.81%).  
  1. Temos vivido um cenário de volatilidade baixa (historicamente) e índice de commodities nas máximas. Um cenário muito bom para um país emergente exportador de commodities como o Brasil. E não por acaso já vimos o real se valorizar mais de 10% ante o dólar. A pergunta é: até quando vamos seguir vendo esse cenário? E se ele se alterar, penso que sentiríamos o impacto no câmbio. 
  1. Pra terminar, países que crescem mais vendem seus produtos para o mundo e recebem por isso, além de atraírem capital de investimento para suas economias e tudo isso tende a valorizar suas moedas. Nesse sentido, ainda temos um cenário de maior crescimento nos EUA na comparação com o Brasil. O Boletim Focus aponta para um crescimento do PIB de 4,85% no Brasil; enquanto isso, o Fed revisou sua expectativa de crescimento para o PIB dos EUA para 7%. 

Por isso, sigo afirmando que o investidor está tendo uma janela de oportunidade muito boa para começar a dolarizar parte do seu patrimônio. Além de pegar um patamar de câmbio mais baixo que o de 3 meses atrás, pode ainda se aproveitar da queda de algumas ações para começar a montar seu portfólio. Nesse sentido, não deixe de acessar o relatório Seleção Avenue, disponível para os clientes Avenue.  

SEMANA DE CONVIDADOS NO WARMUP AVENUE 

Teremos uma semana especial cheia de convidados no Warmup Avenue, entre 21 e 25 de junho. Se liga neste line-up e não perca:  

21 – Segunda Macroeconômica 

Convidado: Roberto Attuch Jr. – CEO da Ohm Research, falando diretamente da Europa. 

22 – Terça dos REITs – Os fundos Imobiliários americanos 

Convidado: Ismael Fernandes (@central_dos_reits) – Referência em REITs no Brasil. 

23 – Quarta Global – Commodities 

Convidado: Mauricio Bellinelo (@mauriciobellinelo) – Especialista em commodities há 12 anos e consultor em Gestão de Portfólios nos EUA. 

*Junto com professor Fabio Fares (fabiofares_) – Avenue Academy 

24 – Quinta das Carteiras – Montando um portfólio internacional 

Convidado: Daniel Stapff (@investidorsemfronteiras) – Consultor financeiro formado em Business Finance, Summa Cum Laude pela Barry University na Florida. 

25 – Sexta Brasileira – Mudanças nos mercados de capitais nos últimos anos 

Convidado: Professor Alexandre Cabral (@professoralexandrecabral) – Ministra aulas e cursos nas mais renomadas instituições brasileiras (B3, Ibmec etc). 

Até semana que vem. 

William Castro Alves   

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