(Trecho de) O Crocodilo

O Crocodilo é um escrito potencialmente marcado pela atividade jornalística de Dostoiévski em 1864

Por:Fiódor Dostoiévski

Os macacos, suponho eu, me apareceram em sonho porque estavam encerrados na vitrine do crocodileiro, mas Ielena Ivânovna constituía já um assunto à parte.

Desde já, direi que eu amava esta senhora; mas apresso-me, e apresso-me a todo vapor, a esclarecer: amava-a como um pai, nem mais nem menos. Concluo isto porque muitas vezes me aconteceu sentir um desejo invencível de beijar-lhe os labiozinhos. E não só os labiozinhos, mas também os dentinhos, que ela sempre exibia de modo tão encantador, quando ria, qual uma fileira de pérolas bonitas e bem selecionadas. E ela ria com surpreendente frequência. Ivan Matviéitch, nas ocasiões de carinho, chamava-a de seu “simpático absurdo”— um nome sobremaneira justo e característico. Aquela mulher era um bombom, e nada mais. Por esse motivo, não compreendo de modo nenhum por que Ivan Matviéitch achou de ver nela Eugênia Tour russa. Em todo caso, o meu sonho, deixando-se de lado os macacos, causou-me uma impressão agradabilíssima e, examinando mentalmente, durante o chá matinal, todos os acontecimentos da véspera, decidi passar em casa de Ielena Ivânovna sem mais tardança, a caminho da repartição, o que, aliás, devia fazer na própria qualidade de amigo da casa.

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